Como conviver com as tentações?

Francisco Rebouças

COMO CONVIVER COM AS TENTAÇÕES?

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.”– (Tiago, 1:14.)

Iniciamos este nosso artigo, recorrendo ao dicionário da língua portuguesa para entender o significado da palavra “Tentação”, conforme segue: Substantivo feminino. Atração por coisa proibida. Movimento íntimo que incita ao mal. Desejo veemente.

Os Espíritos Superiores atendendo às questões formuladas pelo codificador da Doutrina Espírita, sobre o assunto, esclareceram-nos nas perguntas abaixo, extraídas de O Livro dos Espíritos que seguem.

712 – Com que fim pôs Deus atrativos no gozo dos bens materiais?

“Para instigar o homem ao cumprimento da sua missão e para experimentá-lo por meio da tentação.”

– Qual o objetivo dessa tentação?

“Desenvolver-lhe a razão, que deve preservá-lo dos excessos.”

Se o homem só fosse instigado a usar dos bens terrenos pela utilidade que têm, sua indiferença houvera talvez comprometido a harmonia do Universo. Deus imprimiu a esse uso o atrativo do prazer, porque assim é o homem impelido ao cumprimento dos desígnios providenciais. Mas, além disso, dando àquele uso esse atrativo, quis Deus também experimentar o homem por meio da tentação, que o arrasta para o abuso, de que deve a razão defendê-lo.

713. Traçou a Natureza limites aos gozos?

“Traçou, para vos indicar o limite do necessário. Mas, pelos vossos excessos, chegais à saciedade e vos punis a vós mesmos.”

714. Que se deve pensar do homem que procura nos excessos de todo gênero o requinte dos gozos?

“Pobre criatura! Mais digna é de lástima que de inveja, pois bem perto está da morte!”

– Perto da morte física, ou da morte moral?

“De ambas.”

O homem, que procura nos excessos de todo gênero o requinte do gozo, coloca-se abaixo do bruto, pois que este sabe deter-se, quando satisfeita a sua necessidade. Abdica da razão que Deus lhe deu por guia e quanto maiores forem seus excessos, tanto maior preponderância confere ele à sua natureza animal sobre a sua natureza espiritual. As doenças são, ao mesmo tempo, o castigo à transgressão da lei de Deus.

Parece-nos claro que o desenvolvimento da razão é algo, imprescindível, ao indivíduo para que atenda ao impositivo da Lei Maior, que estabelece que todo excesso é desnecessário, principalmente, em relação aos bens materiais que nos levam ao abuso indiscriminado desses recursos, causando prejuízos não só à sociedade como também a nós mesmos.

Por essa razão, o dinheiro, o poder, a evidência pessoal e etc podem representar obstáculos difíceis de serem vencidos e se tornarem causas de quedas e atrasos em nossa caminhada rumo à felicidade e a paz de espírito que tanto almejamos desfrutar um dia, conforme nos mostra a história da humanidade onde o que não faltam são exemplos de personalidades ilustres, em todos os setores da vida humana, que se deixaram arrastar pelos prazeres ilusórios das tentações.

Precisamos atentar para as instruções que os Emissários Superiores nos falam também sobre o papel da razão, que representa o equilíbrio e se alcança com o desenvolvimento da inteligência que Deus nos concedeu para o nosso crescimento intelectual, moral, e espiritual conforme podemos observar nas questões seguintes.

780. O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?

“Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.” (192-365)

– Como pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral?

“Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.”

Peçamos a Deus, na prece ensinada por Jesus que “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”, não nos esquecendo dos desafios que, muitas vezes, entendemos por mal e que, na verdade, são oportunidades necessárias ao nosso equilíbrio e quitação dos débitos contraídos diante das sábias e justas Leis Divinas.

Encerrando este artigo com as palavras de Emmanuel no capítulo 88 do livro Religião dos Espíritos conforme segue.

“…Recorda, porém, que toda dificuldade é teste renovador. Todos somos tentados na imperfeição…”

A única fórmula clara e segura de vencer, no teste contra as influências inferiores, será sempre, o que for, com quem for e seja onde for, esquecer o mal e fazer o bem.

Francisco Rebouças

Fontes:  Espiritismo na Rede

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Romances psicografados são melhores?

Gabriela Dias

O romance é um gênero literário que traz uma narrativa em prosa, ficção, conto ou novela.

Os romances espíritas têm por objetivo trazer ensinamentos, lições e respostas de uma forma mais leve e prática, através de narrativas e personagens, baseadas em histórias verídicas ou não (no caso de uma ficção, por exemplo), nos auxiliando na compreensão dos ensinamentos da Doutrina Espírita.

Comumente, entre os apreciadores da literatura espírita, observamos o seguinte questionamento: essa obra é psicografada? ou seja, ela foi ditada por um espírito através da psicografia ou foi o próprio autor que a escreveu? E muitos, diante da negativa à essa pergunta, perdem o interesse pelo livro sem nem ao menos examinar seu conteúdo.

Enquanto adeptos da Doutrina Espírita, não estaríamos caindo em contradição ao dar mais atenção a obras psicografadas em detrimento de obras que não o são? Não estaríamos nos interessando mais pelo misticismo do que pelo espiritismo, de fato?

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XXI, no item 10, Kardec nos aconselha em nota:

Em geral, “desconfiai das comunicações que trazem um caráter de misticismo e de estranheza ou que prescrevem cerimônias e atos bizarros; então, há sempre um motivo legítimo de suspeição.”

Não devemos nos apegar tanto aos misticismos e aos fenômenos mediúnicos, mas ao ensinamento que aquele conteúdo nos traz. A Doutrina Espírita não deve ser palco e seus adeptos não devem ser protagonistas de manifestações de misticismo que pouco agregam e sempre devem ser questionadas.

Se hoje lemos, estudamos e temos capacidade intelectual para escrever sobre assuntos ligados à Doutrina Espírita, devemos esperar o desencarne para ditar o que sabemos a um médium (algumas vezes com menos instrução) para que nossas palavras tenham credibilidade?

Vejam, não se trata de dizer que uns são melhores que os outros por terem mais instrução em nível de conhecimento terreno, material, mas de questionarmos e avaliarmos um trabalho por seu conteúdo doutrinário e não descredibilizá-lo por não ter diretamente um espírito por trás pois, assim, ignoramos o fato presente em O Livro dos Espíritos, na questão 459, onde os espíritos ao serem questionados por Kardec se os Espíritos influem nossos pensamentos e ações, respondem:

“Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem.”

Assim sendo, todos somos médiuns e, ainda que o trabalho não tenha sido concebido através da psicografia, todo conteúdo que busca instruir e disseminar as leis de amor e caridade pode e, provavelmente foi também inspirado, mesmo que de uma forma inconsciente.

No livro O Que é o Espiritismo, durante diálogo com o visitante Kardec elucida que:

“(…) Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo. Aquele que empreende essa tarefa, deve fazê-la sem ideias preconcebidas. Mas, se antes de abrir o livro já o condenou em seu pensamento, seu exame não pode ser imparcial.”

A crítica se aplica tanto ao lado “negativo”, quando ao “positivo” quando julgamos que um romance é melhor por ter sido concebido através da psicografia.

Analisando ainda mais, se considerarmos bom um romance simplesmente por ter sido psicografado e não nos atentarmos a seu alinhamento doutrinário, como identificaremos possíveis contradições com o espiritismo e até mesmo processos obsessivos? (Sim, mesmo os médiuns psicógrafos que já exercem sua mediunidade de forma ostensiva e trabalham há anos podem ser obsidiados.)

Em Armadilhas da Obsessão, a autora Rafaela Paes de Campos nos explica que:

“(…) a obsessão não é fruto apenas da inferioridade de certos espíritos, mas também, fruto de um descuido do obsidiado, que se deixa levar pela negatividade de pensamentos e sentimentos, abrindo portas imensas para que esses espíritos menos esclarecidos exerçam seu poderio.”

Dessa forma, devemos sempre analisar o conteúdo dos livros sem nos apegar aos misticismos e à possível fama do médium que, independente do tempo que já atua, não detém o conhecimento absoluto da verdade. E, se acha que detém, precisamos desconfiar ainda mais pois, em O Livro dos Médiuns, no capítulo XXIII, intitulado Da Obsessão, Kardec nos explica como os diversos tipos de obsessão podem se manifestar e nos esclarece sobre a fascinação:

A” fascinação tem consequências muito mais graves. É uma ilusão produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium, e que paralisa de alguma forma seu julgamento com respeito às comunicações. O médium fascinado não crê ser enganado. (…)”

Portanto, torna-se imprescindível o cuidado e o critério imparcial daqueles que avaliam uma obra durante seu processo de publicação, impedindo que venha a público conteúdos duvidosos que visam apenas o retorno material. E a nós, leitores e amantes dos romances espíritas, cabe o dever de não julgar o livro apenas pela capa ou pela psicografia, mas passar os livros pelo crivo da razão e não desconsiderar o conhecimento e os ensinamentos que nos são oferecidos.

Gabriela Dias

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP, IDE, 365° edição, 2009, p. 202.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillion Ribeiro. Rio de Janeiro, RJ, FEB, 84° edição, 2003, p. 246.

KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile. Araras, SP, IDE, 74° edição, 2009, p. 13.

CAMPOS, Rafaela Paes de. Armadilhas da Obsessão. Campos dos Goytacazes, RJ, Editora Letra Espírita, 1° edição, 2020, p. 24.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP, IDE, 85° edição, 2008, p. 209.

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Falar e Fazer

Aldevair David

Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não (…) (1)

Sem dúvida deverá sempre existir entre a fala e a ação uma certa coerência, até para que o falante tenha alguma credibilidade.

É certo que esta é a forma ideal de fazer, porém, não existem perfeitos no mundo em que habitamos. Os seres aqui são classificados pelos espíritos superiores como imperfeitos e bem distantes da perfeição, por isso o que ainda predomina no mundo é o mal, fruto do que cada um produz com a sua condição moral a ser aperfeiçoada.

Entender a condição que nos nivela nesse mundo, a de espíritos atrasados moralmente, não nos dá o direito de fazer o que queremos, pois mesmo não tendo total consciência do que fazemos, respondemos por nossos atos, pensamentos e sentimentos perante a lei divina, essa lei que está em nossa consciência e nos mostra sempre o certo e o errado. Nossas paixões nos aconselham mal, ainda cedemos aos impulsos de fazer o que nos agrada, o que nos dá prazer mesmo que em detrimento do outro.

Muitos justificam que não se aventuram a falar do bem porque ainda não são bons, que não opinam sobre a luz uma vez que ainda tateiam em alguma escuridão, então, transformam-se em críticos de plantão, dizendo que não sendo perfeitos aqueles que falam, não deveriam ter a ousadia de se colocarem à frente dos outros para ensinar. Não há dúvida de que nenhum falante possui em plenitude todas as virtudes sobre as quais fala, mas isso não é motivo decisivo para não o fazer, tendo em vista que ao fazê-lo estão recordando para si mesmos os seus deveres morais para com a vida e os seus irmãos. Comenta o codificador do espiritismo que, “se Deus não houvesse concedido a palavra, senão aos que são incapazes de dizer coisas más, haveria mais mudos que falantes”. (2)

Compreendemos que o ideal é que nos esforcemos para sermos melhores, assim, o que estivermos falando encontrará abrigo na alma de quem nos ouve porque vem de um coração sincero que está procurando melhorar-se, se falamos sem desejar nossa própria corrigenda, a hipocrisia provocará irritação e repulsa. Somente a sinceridade de propósitos dará autoridade moral àquele que fala.

Vejamos o Modelo e Guia da humanidade, Jesus, ao procurar seguir os seus ensinamentos, verdadeiramente falaremos com sincero amor e real desejo do bem.

A LUZ QUE ILUMINA A PALAVRA VIRÁ SEMPRE DO EXEMPLO.

Adelvair David

Fonte: Agenda Espírita Brasil

Referências:

(1) Mateus, 5:37; e

(2) O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap XXIV, item 12.

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A Alegria dos Outros

Momento Espírita

Um jovem, muito inteligente, certa feita se aproximou de Chico Xavier e indagou-lhe:

Chico, eu quero que você formule uma pergunta ao seu guia espiritual, Emmanuel, pois eu necessito muito de orientação.

Eu sinto um vazio enorme dentro do meu coração. O que me falta, meu amigo?

Eu tenho uma profissão que me garante altos rendimentos, uma casa muito confortável, uma família ajustada, o trabalho na Doutrina Espírita como médium, mas sinto que ainda falta alguma coisa.

O que me falta, Chico?

O médium, olhando-o profundamente, ouviu a voz de Emmanuel que lhe respondeu:

Fale a ele, Chico, que o que lhe falta é a “alegria dos outros”! Ele vive sufocado com muitas coisas materiais. É necessário repartir, distribuir para o próximo…

A alegria de repartir com os outros tem um poder superior, que proporciona a alegria de volta àquele que a distribui.

É isto que está lhe fazendo falta, meu filho: a “alegria dos outros”.

* * *

Será que já paramos para refletir que todas as grandes almas que estiveram na Terra, estiveram intimamente ligadas com algum tipo de doação?

Será que já percebemos que a caridade esteve presente na vida de todos esses expoentes, missionários que habitaram o planeta?

Sim, todos os Espíritos elevados trazem como objetivo a alegria dos outros.

Não se refere o termo, obviamente, à alegria passageira do mundo, que se confunde com euforia, com a satisfação de prazeres imediatos.

Não, essa alegria dos outros, mencionada por Emmanuel, é gerada por aqueles que se doam ao próximo, é criada quando o outro percebe que nos importamos com ele.

É quando o coração sorri, de gratidão, sentindo-se amparado por uma força maior, que conta com as mãos carinhosas de todos os homens e mulheres de bem.

Possivelmente, em algum momento, já percebemos como nos faz bem essa alegria dos outros, quando, de alguma forma conseguimos lhes ser úteis, nas pequenas e grandes questões da vida.

Esse júbilo alheio nos preenche o coração de uma forma indescritível. Não conseguimos narrar, não conseguimos colocar em palavras o que se passa em nossa alma, quando nos invade uma certa paz de consciência por termos feito o bem, de alguma maneira.

É a Lei maior de amor, a Lei soberana do Universo, que da varanda de nossa consciência exala seu perfume inigualável de felicidade.

Toda vez que levamos alegria aos outros a consciência nos abraça, feliz e exuberante, segredando, ao pé de ouvido: É este o caminho… Continue…

* * *

Sejamos nós os que carreguemos sempre o amor nas mãos, distribuindo-o pelo caminho como quem semeia as árvores que nos farão sombra nos dias difíceis e escaldantes.

Sejamos os que carreguemos o amor nos olhos, desejando o bem a todos que passam por nós, purificando a atmosfera tão pesada dos dias de violência atuais.

E lembremos: a alegria dos outros construirá a nossa felicidade.

Redação do Momento Espírita, com base em relato sobre episódio da vida de Francisco Cândido Xavier, de autor desconhecido, e que circula pela Internet

Fonte: G.E. Casa do Caminho de S. Vicente

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O que a física quântica tem a ver com o espiritismo?

Por Eliana Haddad                                                         Alexandre Fontes Fonseca

Alexandre Fontes Fonseca

Afinal, o que a física quântica tem a ver com o espiritismo? Muitos autores e palestrantes têm comentado sobre a relação existente entre espiritualidade e as descobertas da ciência, principalmente no que se refere à física quântica, e é preciso compreender bem esse assunto para evitar confusões. Há pouco mais de um século, o físico Max Planck tentava compreender a energia irradiada pelo espectro da radiação térmica, calor que todos os corpos emitem, e chegou a algumas conclusões que balançaram os princípios da física clássica. Nascia assim a física ou mecânica quântica, trazendo novos conceitos, como a não localidade. Em entrevista ao Correio Fraterno, o doutor e professor de física no Departamento de Física da Faculdade de Ciências da UNESP, em Bauru, Alexandre Fontes da Fonseca, fala sobre o assunto e alerta para as conclusões apressadas e indevidas ao se falar sobre o tema no meio espírita.

O que é física quântica?

Física quântica é o ramo da física que estuda e descreve o comportamento da matéria em escala microscópica (atômica e subatômica). Ela se baseia no fato de que trocas de energia entre sistemas atômicos só podem ocorrer em múltiplos de um determinado valor que é, então, chamado de quantum, daí o adjetivo ‘quântico’. A energia do sistema não pode ter qualquer valor, mas apenas valores associados a determinados ‘estados físicos’. Podemos comparar esses ‘estados físicos’ a prateleiras de uma estante. Os livros só podem se situar em alturas dadas por cada prateleira, mas nunca entre uma prateleira e outra. A física quântica, é preciso enfatizar, é uma teoria da matéria, isto é, desenvolvida para descrever o comportamento de objetos materiais.

O que a física quântica tem a ver com o espiritismo? Precisamos dela para compreendê-lo?

Não tem nada a ver com o espiritismo. Ambas são teorias diferentes, desenvolvidas para descrição de ‘objetos’ de estudo distintos. Enquanto a física quântica é uma teoria da matéria, o espiritismo é a ciência do espírito.

Para apreender e compreender o espiritismo e seus pontos fundamentais, em nada precisamos da física quântica ou de outras teorias modernas da ciência.

Percebe-se um alvoroçado interesse dos espíritas pela física quântica, muitas vezes para justificar a existência do espírito. Isso está correto?

Apesar de a intenção ser boa, isso não está correto! Esse interesse decorre de algumas interpretações ‘estranhas’ da teoria quântica (isto é, que estão fora do senso-comum) que fazem pensar que os fenômenos espíritas (também considerados fora do senso-comum) devam ter relação direta com essas interpretações. Esse tipo de extrapolação ou relação superficial entre conceitos da física e do espiritismo não é uma prática científica!

Como assim, interpretações estranhas? Pode dar um exemplo?

Ao tentar entender o comportamento quântico das partículas em nível microscópico, surgem interpretações como: um objeto pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo; influência da consciência do observador nas medidas experimentais; uma partícula pode se comportar como uma onda e vice-versa; a existência de universos paralelos; ligação não local, etc.

Essas interpretações são estranhas, pois decorrem da tentativa de se perceber o comportamento das partículas microscópicas com as impressões que temos do mundo macroscópico, através dos nossos cinco sentidos. Essa é apenas uma das razões para evitar que se façam relações superficiais entre conceitos quânticos e conceitos espíritas.

Mas que problemas acarretariam a aceitação desse tipo de relação entre física quântica e espiritismo?

A invigilância e a falta de conhecimento sobre o que é ciência e de como ela progride favorecem a abertura de brechas no movimento espírita para a assimilação de teorias e doutrinas pseudocientíficas que, por usarem conceitos da física quântica na sua descrição, encantam as pessoas fazendo-as achar que se trata de teorias e doutrinas científicas. Como Kardec, em A gênese, propõe que o espiritismo esteja sempre de acordo com a ciência, alguns companheiros espíritas um pouco apressados e sem entendimento profissional do assunto adotam e propagam algumas teorias e práticas místicas, só porque elas se consideram científicas por usarem conceitos da física. Esquecem-se de que o espiritismo orienta que “é melhor repelir dez verdades do que admitir uma só falsidade” (Erasto, item 230 de O livro dos médiuns). A vigilância, portanto, com relação a esse tipo de assunto deve ser mais que redobrada! E tem gente se aproveitando da ignorância do público leigo para ganhar dinheiro com venda de livros, dvds, seminários, documentários, cursos, congressos, etc., todos utilizando-se o adjetivo “quântico” sem ter respaldo formal e rigoroso da física. O movimento espírita deve se precaver contra isso. Se estudarem a fundo o que é ciência, o que é física e, o mais importante, o que é o espiritismo, muitas dessas confusões vão deixar de existir.

Você teria exemplos de teorias e práticas baseadas na física quântica que mesmo bem intencionadas carecem de bases científicas?

Sim. Uma dessas teorias, que tem sido muito divulgada no movimento espírita, como demonstração científica de conceitos como Deus, alma, reencarnação e mediunidade, está contida na obra Física da alma, de Amit Goswami. Segundo ele, a alma após o desencarne permanece num estado permanente de sono, que perdura até a próxima encarnação. Para Goswami, o mundo espiritual não tem graça, por permanecerem os espíritos inconscientes. Nosso Lar e André Luiz não existem no mundo espiritual de Goswami. Vê-se que não precisa saber de física quântica para perceber o absurdo doutrinário de suas teorias!

Outra teoria que tem atraído alguns companheiros espíritas é a chamada apometria. Ela surgiu como uma técnica de desdobramento destinada a ajudar pessoas com problemas espirituais e de saúde. Suas obras básicas são apresentadas como totalmente baseadas em conceitos e equações da física. Porém, a teoria usa de maneira equivocada os conceitos da física, faz extrapolações no campo da pesquisa de maneira inapropriada e define equações sem nenhuma coerência interna ou com relação à física, não satisfazendo os rigores mínimos de desenvolvimento nessa área.

Há também uma teoria baseada na física conhecida e respeitada no movimento espírita. O autor dedicou muitos anos à pesquisa de fenômenos espíritas e foi muito idealista, além de pessoa fraterna e inteligente deixando inúmeros amigos e seguidores. Trata-se da teoria corpuscular do espírito ou, mais recente, teoria do psi quântico, de Hernani G. Andrade. Hernani propôs uma teoria para a matéria psi similar à teoria quântica da matéria, propondo que o espírito fosse composto por essa matéria. A ideia é interessante, porém a forma como as partículas da matéria psi foram propostas não seguiram metodologia e rigores que se empregam na pesquisa e desenvolvimento de novas teorias em física. A teoria de Hernani contém erros de física, além de extrapolar conceitos sem o devido rigor formal usado na física. Apesar de valer a leitura pelas informações e pela criatividade, o psi quântico não pode ser considerado uma teoria científica legítima.

Para o espiritismo, temos na base de tudo Deus, espírito e matéria. Onde a física quântica se encaixaria?

A física quântica nada mais é do que uma criação humana para tentar descrever alguns fenômenos naturais em escala microscópica. É uma tentativa de entender, utilizando-se uma sofisticada linguagem matemática, algumas leis naturais válidas para a matéria.

Afinal, existe uma ‘nova física’ que possibilitaria outras vias de acesso ao conhecimento, além dos métodos da ciência atual? Que novidade é essa?

Não existe ‘nova física’ que possibilite outra via de acesso ao conhecimento! “Para coisas novas precisamos de palavras novas”, já dizia Kardec! Quando uma nova via de acesso ao conhecimento surgir, será preciso dar um nome novo para distingui-la das vias de acesso conhecidas. Precisará também ser testada e verificada como, de fato, uma “via de acesso ao conhecimento”. Os defensores de uma nova física apenas estão pretendendo valorizar conceitos místicos, usando o status que a física tem na sociedade. Isso é uma forma moderna de enganar o público leigo que não conhece física e não sabe avaliar cientificamente a ‘novidade’. É preciso tomar muito cuidado, lembrando que Kardec sempre apoiou a ciência formal e não movimentos pseudocientíficos.

Na sua visão, a física quântica vai identificar a existência do espírito, como inteligência, independente da matéria?

Não! Não é a física quântica a origem da inteligência no espírito! O espírito se revela pelo conteúdo de suas mensagens! E foi assim que o espiritismo identificou e comprovou a existência da alma, sua sobrevivência e a possibilidade de comunicação com os encarnados. No máximo, a física um dia irá contribuir no entendimento de como ocorre a interação entre fluidos espirituais (perispírito, por exemplo) e matéria (corpo físico).

Devemos combater a tentação de obter mérito sem o devido aprofundamento no estudo. Espiritismo é uma doutrina ao mesmo tempo simples e robusta. Simples nos seus propósitos de regeneração da humanidade através da regeneração de cada um de nós; e robusta nas suas bases que não são somente científicas, mas também divinas. O espiritismo é a única doutrina conhecida na humanidade que tem um duplo caráter de uma revelação: o caráter divino e o científico (Kardec, item 13 do cap. I de A gênese). Portanto, saibamos valorizar o espiritismo na forma como foi revelado pelos bons espíritos, pois temos um compromisso de estudá-lo e compreendê-lo, para então poder ajudá-lo a se desenvolver dentro dos parâmetros de qualidade e seriedade que o tornarão conhecido e respeitado por todos.

(Artigo original publicado no Jornal Correio Fraterno)  12 de agosto de 2019

Fonte: correio.news

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Atividade Espiritual

Martins Peralva

ATIVIDADE ESPIRITUAL

LE – Questão 401: Durante o sono, a alma repousa como o corpo?

– Não, o Espírito jamais está inativo.

Nos círculos mais elevados do Espírito, o trabalho não é imposto. A criatura consciente da verdade compreende que a ação no bem é ajustamento às leis de Deus e a ela se rende por livre vontade. – Emmanuel

* * *

Incessante é a atividade do Espírito, seja na vigília, seja durante o sono.

Habituados, sempre, a examinar os problemas em função das leis conhecidas, atuantes na esfera fisiológica, os menos afeitos aos temas espíritas encontram dificuldade em compreender não tenha a alma necessidade de repouso.

Levemos em conta, no estudo do assunto, o trinômio “Espírito-Perispírito-Corpo”, para que se facilite nosso entendimento.

Para o corpo o descanso é imperativo, objetivando o refazimento da estrutura celular, cujo desgaste, naturalmente, provoca a exaustão, o enfraquecimento orgânico.

O perispírito, igualmente, por refletir, nas almas pouco evoluídas, o condicionamento a impressões e sensações de natureza fisiológica, acusa reações de cansaço e aflição, de dor e sofrimento, consoante observamos nas sessões mediúnicas, ao se comunicarem entidades ainda ligadas, mentalmente, ao veículo corpóreo. Além da referência dos Espíritos a Allan Kardec, a literatura de André Luiz comprova a necessidade do “descanso perispiritual”, que se reflete, inclusive, em sua densidade e coloração.

O Espírito, a centelha divina, o elemento inteligente, incorpóreo, não repousa, não dorme, segundo os atuais conhecimentos doutrinários.

Tão logo entorpece o corpo, pelo sono, afasta-se o Espírito e demanda regiões do seu agrado, de sua preferência, para o desempenho de atividades peculiares ao seu estado evolutivo, o qual lhe dita os gostos.

Assegurando que O ESPIRITO JAMAIS ESTÁ INATIVO, a Codificação complementa o ensino:

“Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos”.

Os sonhos – dizem os Amigos de Mais Alto – comprovam a liberdade e atuação do ser, enquanto dorme o homem.

Quantos encontros, à noite, realiza nossa alma com amigos e desafetos, com entidades inferiorizadas ou com almas superiores, causando-nos alegria ou tristeza, segundo for o caso, provocando um despertar suave e esperançoso, inquieto ou sufocante!

Os pesadelos – abstraindo-nos, é bem verdade, dos arrolados pela Medicina, e que se verificam por anomalias fisiológicas, envolvendo perturbações digestivas -, são, sob o ponto de vista espírita, o resultado de desagradáveis encontros com adversários, encarnados ou desencarnados, que nos atacam, que conosco duelam.

Leia-se André Luiz, entidade que não cessa de estudar, no plano espiritual, e de transmitir-nos o que vai aprendendo, e ter-se-á conhecimento de tudo isto.

Encontros felizes, reuniões encantadoras, aulas edificantes, tertúlias plenas de amor, dos quais guardamos, algumas vezes, clara recordação, realizam-se durante o sono, além da vida orgânica, em prolongamento das experiências diuturnas.

Problemas aparentemente insolúveis, no quadro dos argumentos e providências simplesmente humanos, são equacionados, via de regra, na Espiritualidade, no contato com almas generosas e amigas, que, dotadas de mais ampla visão, experientes e sábias, vislumbram ângulos e implicações que nos escapam, aqui no plano terrestre, onde mais limitadas são as nossas percepções.

A vida real é a espiritual.

A imersão da Alma no corpo de carne representa, apenas, a necessidade do comparecimento do viajor da eternidade ao cenário do mundo, no cumprimento de missão, de provas ou no resgate de enganos que lhe comprometeram a felicidade e o equilíbrio.

O Espírito movimenta-se, trabalha, atua e age enquanto dormem os sentidos físicos, muito mais do que imaginar se possa.

Durante o sono, apenas o consciente adormece.

Liberta-se o inconsciente, pelo afrouxamento da “vigília”.

Os sonhos premonitórios e uma série de outros fenômenos psicológicos evidenciam, de maneira incontestável, a atividade do Espírito durante o sono, aglomerando fatos do passado e do presente e aspirações futuras.

Examinando o problema dos sonhos, no capítulo da atividade espiritual, consideramos oportuno recorrer, mais uma vez, à obra extraordinária de André Luiz – “No Mundo Maior”, explanação de Calderaro, no capítulo “Casa Mental” -, para melhor entendimento da mecânica dos sonhos, em sua profunda complexidade, tendo em vista as naturais reações psicológicas do homem fisicamente adormecido, mas com o Espírito em plena atividade.

Eis o que nos diz o categorizado Instrutor:

“Não podemos dizer que possuímos três cérebros simultaneamente. Temos apenas um que, porém, se divide em três regiões distintas. Tomemo-lo como se fora um castelo de três andares.”

Nossa visualização gráfica:

Casa Mental:

SUPERCONSCIENTE = Casa das noções superiores

CONSCIENTE = Domicílio das conquistas presentes

SUBCONSCIENTE = Residência dos impulsos automáticos.

Classificando, desta maneira, nos três andares do “prédio”, o superconsciente, o consciente e o subconsciente, complementaríamos ainda – porque nosso propósito é tornar compreensivo o assunto – a elucidação, já suficientemente clara e lógica, porque sobretudo singela, com mais um esquema:

SUPERCONSCIENTE = Idealismo Superior = FUTURO

CONSCIENTE = Conquistas atuais = PRESENTE

SUBCONSCIENTE = Síntese dos serviços já realizados = PASSADO.

Lições maravilhosas são-nos ministradas à noite, enquanto repousa o corpo.

Experiências valiosas são-nos transmitidas enquanto passam, tranquilas, as horas noturnas.

Oportunos avisos são-nos dados enquanto dormimos.

Muitas resoluções, tomadas durante o dia, constituem o resultado, a soma de conselhos, de orientações, de roteiros que os amigos espirituais – os “anjos da guarda” de nossos caros irmãos do catolicismo – fornecem-nos à noite, ocorrência que justifica, sem dúvida, o bem conhecido dito popular de que “a noite é boa conselheira”.

Quem gosta de bons assuntos, bons assuntos procurará durante o sono.

Quem prefere bons ambientes, bons ambientes buscará, em Espírito.

A regra prevalece, é bom acentuar, em sentido inverso, indicando a predominância do Espírito nas ações humanas. Inclinações da criatura encarnada vigem no campo espiritual, no sono ou na desencarnação, não tenhamos a este respeito a menor dúvida.

Imperioso, portanto, cultivemos, aqui na Terra, tudo quanto representa amor e convicções nobres.

Indulgência para com os nossos semelhantes.

Desambição ante os valores do mundo.

Cultivo da solidariedade.

Exercitemos, na vigília, o que de melhor nos seja possível fazer, de modo não seja o sono, para nós outros, desagradável pesadelo, mas algumas horas de ventura, nas sociedades de Além-Túmulo, a garantirem, pela manhã, um suave despertar e reconfortante dia de trabalho.

O superconsciente poderia ser designado por “Região da Esperança”, nela situando eminências espirituais que nos compete atingir. As intuições dos gênios e as criações dos santos significam penetrações no compartimento superconsciencial.

O consciente (zona intermediária), campo de atividade da vida presente, contém energias utilizáveis para as manifestações peculiares ao nosso “modo de ser” atual.

Vida moral equilibrada, estudos edificantes, amor evangélico, culto à verdade, etc., são recursos que, adotados na vida presente, criarão condições para que se formem os gênios e os santos.

Na zona subconsciente, situa-se a “residência de nossos impulsos automáticos”. Ê a vida mecanizada, dela eclodindo impulsos que contam a nossa história pretérita.

A fim de nos mantermos equilibrados na direção do Mais Alto, devem as nossas mentes se valer das conquistas passadas, desde que nobres, na orientação do presente, que, por sua vez, deve-se amparar na luminosa esperança que flui do idealismo elevado, para que se concretizem os notáveis cometimentos do futuro – “meta superior a ser alcançada”.

Martins Peralva

O Pensamento de Emmanuel – 21

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