A viagem

A viagem

Iris Sinoti

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A meta do Espírito é tornar-se pleno, conquista essa que se dá através de uma longa trajetória, na qual vai realizando suas experiências e aprendizados em diversas existências corporais.

O caminho dessa trajetória não é único, porquanto o livre arbítrio, a possibilidade de escolher os próprios passos é parte importante desse processo. Como citado no Evangelho, “os caminhos do Senhor são infinitos”, os caminhos são inúmeros, assim como inúmeros são os indivíduos, e cada um deve percorrer seu próprio caminho, realizar sua viagem, vivenciar o mistério da vida, o qual normalmente é inefável e contraditória.

Carl Gustav Jung, no conceito de individuação, ressalta a necessidade de diferenciarmo-nos, a necessidade de sermos únicos e assumirmos o nosso papel nas nossas vidas. De forma resumida, a individuação é a jornada através da qual o indivíduo é impulsionado a tornar-se consciente de suas próprias potencialidades, a ser a pessoa que nasceu para ser. Para que isso ocorra, o pai da Psicologia Analítica esclareceu que é necessário diferenciar-se do coletivo para que o indivíduo possa viver sua própria identidade.

Diferenciar-se não é tarefa fácil, pois ainda somos emocionalmente dependentes das opiniões alheias, ainda somos “tentados” a manter nossas máscaras, a persona, para poder agradar ao coletivo. Muitas vezes, a pressão vem do próprio ambiente familiar, que tenta modelar o indivíduo para que cumpra o que lhe agrada, e não o chamado de sua própria alma.

Por isso mesmo, diferenciar-se para atender o chamado da individuação requer alguns requisitos essenciais, dos quais ressaltamos: coragem, humildade e perseverança.

Todos nós somos, de certo modo, programados para a grande viagem da individuação, que é um processo “natural”, ou seja, faremos esta viagem estejamos com as malas prontas e passagens comprados ou não. A diferença é a quantidade de envolvimento que disponibilizamos para fazê-la e o quanto ela seja prazerosa dependerá disso!

A vida é assim, convida, e resta-nos crescer com esses convites, recuperando-nos e principalmente assumindo as consequências, quando não aceitarmos esse convite, pois tudo é resultado das escolhas feitas e dos compromissos não assumidos.

Muitos de nós ficamos preocupados em descobrir nossa “missão”, e deixamos passar o maior trabalho que temos que realizar: o trabalho de uma vida inteira, que é o nosso processo de individuação, tornarmo-nos o mais consciente de quem somos. Somos convidados a vencer o desafio de sustentar a contraditoriedade da existência, e isso significa viver algumas experiências que amamos e outras que odiamos.

Afinal, como já recordava o apóstolo Paulo, queremos o bem, mas ainda fazemos escolhas ruins para nós e para os outros, e por isso mesmo precisamos aceitar nossa sombra como parte importante para a nossa evolução como espíritos.

Justamente por não estarmos vivendo a vida como deveríamos, aceitamos atender a pulsão de tânatos e nos deprimimos com as sombras do passado, atendemos as pressões do presente e nos envolvemos no medo do futuro, ficando cansadas e cansados da própria vida.

Não existe um único dia que o convite para essa transformação não aconteça, ele é o nosso passaporte à maturidade, à integridade, à diferenciação e à integração. Estamos aceitando esse convite? Ou elegemos a ansiedade como nossa guia na viagem chamada vida?

O que estamos fazendo da nossa vida? Mesmo que ninguém nos faça essa pergunta, um dia nossa própria alma fará. Será que teremos uma resposta? Será que estamos empenhados de fato na nossa transformação, na mudança que desejamos, ou apenas seguimos sem olharmos as sementes que estamos plantando?

Afinal, querendo ou não, “A viagem” já começou…

Iris Sinoti

Fonte: Correio Espírita

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