Sono e Sonambulismo

Sono e Sonambulismo

Cláudio Conti

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Léon Denis expressa com grande maestria a realidade da natureza humana ao dizer que “o homem é para si mesmo um mistério vivo. De seu ser não se conhece nem utiliza senão a superfície. Há em sua personalidade profundezas ignoradas em que dormitam forças, conhecimentos, recordações acumuladas no curso das anteriores existências, um mundo completo de ideias, de faculdades, de energias, que o envoltório carnal oculta e apaga, mas que despertam e entram em ação no sono normal e no sono magnético” [1].

Vemos, portanto, que durante o sono muitas das potencialidades humanas ficam ativas. Contudo, além do sono, o sonambulismo também é um estado em que outras mais potencialidades da alma ficam ativas. Há diferenças e similaridades entre os dois estados, mas ambos se assentam sobre o mesmo princípio: a emancipação da alma. Emancipação significa libertação e, para que essa “libertação” ocorra, é necessário uma predisposição do organismo físico.

Para adentrar nestas questões, é preciso ter em mente que o ser humano é constituído por três partes principais: espírito, perispírito e corpo físico. A constituição do perispírito, por sua vez, não é a mesma para todos os espíritos; dependendo do seu grau de adiantamento, será mais ou menos sutil. Diante disto, podemos compreender que a quantidade de matéria que “envolve” o espírito proporcionará limitações para sua manifestação, pois, quanto mais matéria, maior a limitação. Como exemplo, não podemos comparar a versatilidade durante o verão, quando usamos roupas mais leves, com o inverno, quando normalmente vestimos roupas pesadas. Nos mundos mais evoluídos, nos quais o espírito necessita de maior liberdade de ação, o envoltório material é muito mais sutil do que o corpo que conhecemos [2].

Embora comumente sejam utilizados termos relacionados com “envoltório”, não devemos imaginar que o espírito esteja enclausurado no corpo. Segundo os espíritos responsáveis pela Codificação Espírita, “a alma não se acha encerrada no corpo, qual pássaro numa gaiola. Irradia e se manifesta exteriormente, como a luz através de um globo de vidro, ou como o som em torno de um centro de sonoridade. Neste sentido, pode dizer que ela é exterior, sem que por isso constitua o envoltório do corpo…”[3].

Em uma abordagem didática, podemos considerar, em uma extremidade, algo tão sutil e etéreo como o espírito e, na outra extremidade, algo tão material como a matéria densa. Para que seja possível uma comunicação perfeita entre esses dois extremos, a composição do perispírito, de um mesmo espírito, varia seguindo um sistema de camadas, onde as camadas mais sutis do perispírito ficam mais próximas do espírito, adensando gradativamente até o contacto com o corpo físico.

Ao nos prepararmos para dormir, estamos, na verdade, nos preparando para um desprendimento. Durante o sono, o espírito se liberta parcialmente do corpo físico, mantendo-se ligado pelo cordão fluídico, que, didaticamente, podemos conceber como um fio condutor, através do qual o espírito é capaz de receber e transmitir informações, numa comunicação constante com o corpo físico, que permanece dormindo. Desta forma, mesmo com o espírito estando afastado do corpo, esse não está abandonado e o espírito mantém o controle.

Apesar de soar estranho, o espírito tem uma grande necessidade desses momentos de libertação, não sendo nem mesmo necessário que se esteja em sono profundo [4]. Neste estado de desdobramento, o espírito poderá se deslocar livremente, pois, o cordão fluídico não exerce nenhum impedimento, mesmo à longas distâncias.

Léon Denis dividiu os sonhos em três tipos principais [5]: 1) Sonho ordinário: puramente cerebral, simples repercussão das disposições físicas ou preocupações morais, além do reflexo das impressões arquivadas no cérebro durante a vigília; 2) Primeiro grau de desprendimento: mergulha no oceano de pensamentos e imagens, que de todo lado rolam no espaço, deles se impregna, e aí colhe impressões confusas, tem estranhas visões e inexplicáveis sonhos, podendo mesclar com reminiscências de vidas anteriores e; 3) Sonhos etéreos: no qual o espírito se subtrai à vida física, desprende-se da matéria, percorre a superfície da Terra e a imensidade, onde procura os seres amados e guias espirituais.

Em resumo, há três tipos do que é considerado sonho, sendo que um deles, o último, corresponde a lembranças das experiências do espírito enquanto desdobrado. E é precisamente nesse grau de liberdade que há diferença com o sonambulismo.

É no estado de sonambulismo que o espírito desdobrado se encontra em condições de usufruir maior liberdade de ação, estado no qual, estando ainda mais livre, terá percepções muito mais apuradas que no sonho.

O interessante no sonambulismo é que o espírito pode usar o seu próprio corpo para efetuar qualquer ação. Neste caso é que se dá o fenômeno de sonambulismo comumente conhecido, quando a ação do espírito sobre o corpo não é o mesmo de quando está em vigília.

Comparando o sono e o sonambulismo, é possível reconhecer que existem algumas gradações com que o espírito poderá se libertar do corpo físico. Conforme já visto, a maior ou menor quantidade de matéria que impõe limites ao espírito. Assim, podemos considerar que o grau de liberdade em que o espírito poderá vivenciar está relacionado com a camada do perispírito em que ocorre o desdobramento. Quanto mais matéria o espírito carregar consigo, isto é, quanto mais próximo do corpo ocorrer a liberação, menor o grau de liberdade, em contrapartida, quanto mais próximo do espírito, maior o grau de liberdade.

Cláudio Conti

Fonte: Correio Espírita

Notas bibliográficas:

  1. Léon Denis; No Invisível, pg. 131.
  2. Allan Kardec; O Livro dos Espíritos, questão 186.
  3. Ibidem; questão 141.
  4. Ibidem; questão 407.
  5. Léon Denis; O Invisível, pgs. 156 e 157.
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