Espiritismo para americanos: Um desafio para brasileiros

Espiritismo para americanos: Um desafio para brasileiros

Por Eliana Haddad

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Umberto Fabbri, 56 anos, tem se dedicado à divulgação do espiritismo com bastante entusiasmo nos Estados Unidos. Orador internacional, com diversos trabalhos como expositor da doutrina na Federação Espírita de São Paulo, lançou recentemente seu primeiro livro – Cisco Cândido Xavier – com histórias da convivência com o médium mineiro, colhidas desde quando jovem passou a frequentemente visitar o Grupo Espírita da Prece, em Uberaba.

Executivo da área de marketing, com atividades profissionais no Brasil e Estados Unidos, Umberto se engajou no movimento espírita no exterior, participando de atividades em vários centros, principalmente na região norte da Flórida, realizando palestras, seminários e coordenando cursos de formação doutrinária, inclusive para expositores.

Em entrevista exclusiva ao Correio Fraterno, Umberto aborda os desafios dos brasileiros para levar as ideias espíritas para os americanos, com os mesmos anseios e buscas inerentes ao homem, independentemente do local onde vive. Afinal, “a dor é a mesma em qualquer lugar e o impulso do progresso espiritual é inexorável”, assinala.

Vale a pena acompanhar esse bate-papo, por que não é mesmo por acaso que os brasileiros estão tão presentes, consumindo e visitando as terras de Tio Sam.

Como é a divulgação do espiritismo nos Estados Unidos?

A divulgação é tão carente quanto no Brasil. Se no Brasil, as pessoas reclamam, nos Estados Unidos ela ainda é mais complicada. Porém algumas coisas facilitam a vida por aqui, como, por exemplo, o acesso à tecnologia com custo muito baixo. Assim, a grande maioria dos centros faz a transmissão da palestra ao vivo pela internet e ao mesmo tempo grava e a disponibiliza em seus sites. Alguns também gravam em DVD e os colocam à venda para aferirem alguma receita para o centro. Há também uma feira de livro anual em Miami. Mas as dificuldades ainda são grandes, porque a doutrina não tem penetração entre os americanos e apenas alguns centros começam a fazer um trabalho mais intenso.

Por que o espiritismo não atinge os americanos? Há algum preconceito?

Não vejo problema de preconceito. Espiritismo aqui sempre foi feito por latinos e brasileiros para latinos e brasileiros. E da mesma forma, não adianta levar uma doutrina para o Brasil, se ela estiver sendo falada, por exemplo, em russo.

E na atualidade, há alguma mudança mais perceptível?

Sim. Alguns centros, como o de Boston, por exemplo, decidiram começar a divulgar o espiritismo para americanos, colocando palestras somente em inglês. Outros já estão fazendo palestras com tradução simultânea, onde na média comparecem de 50 a 80 pessoas. Nos maiores centros chegam a comparecer 120, 150 pessoas.

Esses brasileiros são frequentadores do espiritismo ou já são trabalhadores?

Nesses centros maiores, uma boa parte já é formada por trabalhadores espíritas. Mais ou menos 30 e 70 % respectivamente, entre trabalhadores e frequentadores. Mas a questão da tradução tem sido uma decisão importante.

E tem muito público interessado nisso?

Depende. Você começa a atingir os brasileiros casados com americanos e com filhos alfabetizados nos Estados Unidos que falam inglês e não têm pleno domínio de português. No KSFF – Kardecian Spiritist Society of Florida, por exemplo, onde há tradução simultânea, já recebemos um público formado por casais americanos/brasileiros que podem assistir às palestras, entendendo com maior facilidade, cada qual no seu idioma, o que se está falando. No caso de Boston, todas as atividades são em inglês, apesar da maioria dos frequentadores serem brasileiros.

Quais trabalhos são realizados nos centros, além das palestras?

Dependendo do centro, há todos. Tanto voltados para área da assistência espiritual como da assistência social. A diretriz é da FEB  e os cursos sobre a doutrina seguem sua metodologia e material de apoio. São dados em português, porque os interessados são brasileiros. Mas há também centros onde se utiliza o espanhol.

Como são feitos os trabalhos de desobsessão? Os espíritos que se manifestam são culturalmente ligados a qual país?

(Risos) Já estava esperando esta pergunta. Algumas experiências são na língua nativa do indivíduo, embora a manifestação do pensamento descarte a necessidade da linguagem, mas pode acontecer… Já vi casos desta natureza. A comunicação através do pensamento permite que o médium a transmita em português e o doutrinador oriente em português; e também há o caso que o médium fala em inglês e o doutrinador orienta em inglês.

Como são formados os grupos mediúnicos?

Na grande maioria, todos são brasileiros. Ainda não tive a oportunidade de conhecer um grupo de trabalho que tenha um médium americano. Mas já começa a haver necessidade de trabalhos que não estejam limitados aos brasileiros. Há um grupo próximo, criado há um ano e meio, que tem trabalho mediúnico, passe, palestra na língua nativa, além do português.

A assistência social realizada pelos centros nos Estados Unidos é bastante diferenciada. Fale um pouco sobre isso.

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Os centros fazem um trabalho de cadastramento de pessoas necessitadas onde todo mês elas podem fazer uma compra. O Bezerra de Menezes – o centro mais antigo da Flórida, com 26 anos, não sei se dos Estados Unidos–, tem um programa chamado Food Pantry. Trata-se de um supermercado dentro do centro, amparado legalmente pelo governo federal, para onde mensalmente as empresas levam seus produtos que estão relativamente próximos da data do vencimento. Para a empresa é doação, que acaba abatendo no Imposto de Renda. Um relatório com dados do cadastro das pessoas é enviado com detalhes para o governo, dizendo quem são, o que fazem, número de familiares, etc. Normalmente estão desempregadas passando necessidades. A compra no centro é simbólica, naturalmente. Ninguém paga nada.

Quantas pessoas já estão sendo atendidas neste programa?

Não dá para saber. O Bezerra atende pouco mais de 70 famílias, mas o número é limitado, dada a própria condição, os limites do centro. Demanda existe, porque o desemprego aqui continua bastante acentuado, com taxa em torno de 7%.  Sem contar os imigrantes ilegais, que não estão inseridos nestas taxas, obviamente.

Você acha que isso também tem levado os americanos a procurarem algo mais, chegando às casas espíritas?

Na realidade não vejo grandes diferenças na situação entre Estados Unidos e Brasil. Trabalho em casas espíritas em uma região em que a pessoas são muito religiosas. Estão voltadas para o catolicismo e também para o protestantismo. É a mesma situação do Brasil e de todos os lugares. O ponto crucial é que chega um momento em que há buscas por respostas para fatos específicos da vida. Surge também uma nova busca para o público americano por um esclarecimento maior da vida. E, embora o Evangelho esteja em primeiro lugar, não havendo como descartar a parte filosófica e religiosa do espiritismo, percebo que há algo que pode tocá-los mais de perto. É a parte científica da doutrina.

Você diz no sentido da ciência materialista ou da busca essencial do espírito, tendo a doutrina como uma nova ciência?

No sentido de uma boa junção do que acredito aconteça num futuro breve. Teremos as evidências através de uma nova ciência que vai fazer todo o sentido em relação à questão do espírito, do perispírito e coisas do gênero. O ponto principal é que há, sim, um processo em andamento. Existe um trabalho muito forte feito no passado por alguns cientistas americanos e um deles que se destacou é o Joseph Rhine, dentre outros iniciadores nessa área de ciência e espiritualidade. Mas, por exemplo, até bem pouco tempo não se encontrava em revistas americanas uma matéria de capa, como o caso recente na Newsweek de outubro do ano passado, com um depoimento gigantesco de um neurocirurgião mostrando que alguém responde a estímulos e compreende com o cérebro completamente paralisado. Isso é sair do lugar-comum. Aceitar esse conhecimento será uma questão de tempo. O espiritismo não é ciência como a ciência tradicionalista, a ciência positivista – para se ter um nome melhor do que materialista. A ciência na realidade tem os seus próprios dogmas. Quando ela não explica, explicado está. É o absurdo dos absurdos. Foge-se da religião ou do ocultismo — porque para a ciência tudo o que ela não domina passa a ser ocultismo por conta da dogmatização religiosa – e acabam caindo no dogmatismo científico. Essa postura, claro, não é só dos americanos, mas há uma influência muito grande dela sobre eles. A influência da psiquiatria do próprio Freud está dentro deste contexto, quando seu discípulo Jung foi para o outro caminho, o reencarnacionista. Não dá para ignorar tudo isso, dentro da história do conhecimento humano.

Essa postura mais dogmática faz com que o americano seja mais cético, desconfiado em função do próprio desenvolvimento científico e tecnológico?

O que pude sentir é que ele não é cético, não. O americano também não é frio, é muito acolhedor. Ele é muito prático e talvez por isso sua religiosidade esteja muito fechada ainda. Mas existe a busca. Tanto é que as novidades acabam tendo adeptos até demais por aqui, como a teoria lançada da criança índigo, da criança cristal. E, quando as criaturas começam a querer algo além, os oportunistas que estão aí de plantão aproveitam-se dessa situação. Por isso não podemos esmorecer. Há um trabalho a realizar.

Em sua opinião, depois do espiritismo ter se evidenciado nos Estados Unidos com as Irmãs Fox, os espíritos batedores, etc., por que não se expandiu imediatamente por aí?

Acho que o que aconteceu é que havia uma sociedade extremamente fechada em suas bases – catolicismo ou protestantismo. A questão fundamental é o fato de que paradigmas estão sendo alterados. O povo americano está se abrindo mais para as questões do espírito. E, de uma maneira surpreendente, muitas vezes num mix entre ciência positivista e espiritualidade, e ao mesmo tempo despertando uma nova versão de ciência que acaba surgindo através desses pioneiros que têm coragem de admitir algo além da matéria, como no caso da revista, que revela ter-se feito uma viagem fora do corpo.

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Você acredita que, em função desse trabalho na divulgação do espiritismo, os brasileiros passem a ser mais respeitados nos Estados Unidos?

Penso que estejamos, sim, fazendo a diferença. Inclusive na economia dos Estados Unidos, porque consumimos muito por aqui. Talvez esse movimento de “invasão” dos brasileiros não seja espiritualmente tão inocente. São eles os divulgadores do espiritismo para o povo americano. Nada realmente acontece por acaso.

A mudança é mesmo então uma realidade e o espiritismo aí está para colaborar, esclarecendo e consolando. É isso?

Os Estados Unidos vivem um momento importante, onde há muitos paradigmas sendo quebrados. Negros ainda estigmatizados em alguns locais e um presidente negro que foi reeleito, por exemplo. Antes, eram eles e os outros. Agora, com a globalização, estão vendo que apenas fazem parte, como os outros. O desafio é a divulgação do cristianismo redivivo, o que muitos confundem com o proselitismo, mas Jesus disse que não deveríamos colocar a luz debaixo do alqueire nem enterrar os talentos. Devemos aproveitar todos os instrumentos para isso. Não sei se o espiritismo vai entrar nos estados americanos. O que importa é que suas ideias sejam divulgadas que, aliás, não são espíritas, são de Jesus, portanto universais. O nome pouco importa.

Eliana Haddad

Fonte: correio.news

Saiba mais em www.divulgadorespirita.com.br

(Publicado no Jornal Correio Fraterno – Edição 449 jan./fev. 2013)

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