Depois da Morte

Depois da Morte

Martins Peralva

DEPOIS DA MORTE

Por ocasião da morte, tudo, a princípio, é confuso. De algum tempo precisa a alma para entrar no conhecimento de si mesma. Ela se acha como que aturdida, no estado de uma pessoa que despertou de profundo sono e procura orientar-se sobre a sua situação. (Allan Kardec)

Não te esqueças, assim, de que terás também a boca hirta e as mãos enregeladas, na grande noite, e acende, desde agora, a luz do bem constante, na rota de teus dias, para que a sombra imensa te não furte ao olhar a visão das estrelas. (Emmanuel)

* * *

Com raríssimas exceções, as criaturas humanas sofrem perturbações durante e após a grande transição.

Em Doutrina Espírita, cremos que a afirmativa com que iniciamos o presente capítulo é aceita pela generalidade dos que a estudam, sendo também pacífico o entendimento de que tal perturbação não é igual para todos. Varia de indivíduo a indivíduo.

Naqueles que transpõem os pórticos espirituais inteiramente despreparados, em função do tipo de existência materialista e materializadora que levaram, mais forte é o desequilíbrio, dado que as impressões da vida corporal transferem-se, integralmente, para o plano da consciência desencarnada.

Os prejuízos e sofrimentos com que deparam os que vivem alheios a qualquer esforço pessoal, no campo das lutas renovadoras, podem ir de simples depressões, motivadas por complexos culposos, até os terríveis processos de tortura impostos pela mente que se liberou do corpo físico, mas não se libertou das peias do remorso profundo.

Os que vivem em função do bem e da moral, embora sintam os efeitos do choque biológico da desencarnação, podem guardar, por algum tempo, impressões incomodativas; contudo, prontamente se reintegram nos trilhos do equilíbrio espiritual, com a consequente adaptação ao novo plano de vida, regido por leis até então por eles ignoradas.

De acordo com o Espiritismo, não há mistério, não há privilégios regendo a vida no plano subjetivo, ou espiritual.

Além da morte, a posição evolutiva é que determina o estado da alma desencarnada — negativo ou positivo, feliz ou desventurado.

“…acende, desde agora, a luz do bem constante, na rota dos teus dias, para que a sombra imensa te não furte ao olhar a visão das estrelas” — adverte, carinhosamente, o respeitável Mentor, descortinando ante nossos olhos, ainda baços, os clarões do amor e da sabedoria…

Acender a luz do bem, para que não haja prolongado aturdimento, após a morte física.

Usar o combustível do amor, para que menor seja a perturbação e, assim, mais rápido se dê o despertamento e mais breve a recuperação do equilíbrio “além-fronteiras”.

Ninguém, a não ser entidades com larga soma de experiência no trato com os enfermos desencarnados, poderá prever a intensidade e a duração das crises mentais que a maioria dos homens leva para o mundo espiritual.

É como acontece na esfera terrestre: somente o médico experimentado, de vasto tirocínio, poderá determinar, com razoável margem de probabilidades de acerto, a duração de certas crises orgânicas e, mesmo, a época aproximada da morte.

Em determinados gêneros de desencarnação, a inconsciência parcial ou total sobrevém ao desenlace, especialmente nas chamadas “mortes violentas”.

A Providência Divina, caracterizando-se, invariavelmente, por infinita bondade e extrema misericórdia, funciona, em algumas ocasiões, por intermédio de Sublimes Mensageiros, no sentido de que seja retardado o despertamento além-túmulo, para evitar conseqüências e efeitos dolorosos.

Quando o despertamento pode contribuir para aumentar a dor do recém-aportado aos continentes ultrafísicos, a providência, generosa e magnânima, é aguardarem os Amigos Espirituais o concurso do tempo, o extraordinário benfeitor, a fim de que se não contrariem universais princípios de misericórdia que substancializam as leis divinas.

Em casos de acidentes não provocados pelo próprio desencarnado, é realmente doloroso para o Espírito sentir, vivamente, o corpo dilacerado, os miolos estourados, os membros mutilados.

A lei funciona, atenuando ou agravando, na proporção da responsabilidade de cada um, quanto ao gênero de morte.

A recordação dos lances que o levaram à desencarnação, na época aparentemente incontornáveis, acentua o sofrimento, causando terrível mágoa pela compreensão de que desperdiçou o tesouro da existência.

A “saudade da vida”, a saudade dos entes queridos que ficaram na retaguarda, no palco da Terra, punge-lhe o coração.

Em nome da Suprema Bondade, Emissários Celestes deixam, por vezes, os recém-desencarnados temporariamente envolvidos no magnetismo pesado com que se revestem. No entanto, tão logo o tempo funcione, beneficamente, os princípios de misericórdia, reconfortando e pacificando, dando coragem e bom ânimo, alcançam o coração em desequilíbrio, induzindo-o à confiança no Divino Poder.

Despertados no tempo próprio, os desajustados do coração e da inteligência, do sentimento e do raciocínio passam a receber os influxos da prece, que é o pão do Espírito, embora saibamos, todos nós, que a oração não nos exonera das lutas, mas ajuda-nos a transpô-las galhardamente.

Desta maneira, resumindo, doutrinariamente, os conceitos expendidos em “O Livro dos Espíritos” e a observação formulada, sabiamente, por Emmanuel, em torno da posição da alma após a morte física, podemos acentuar, por verdade doutrinária, que:

a) — A alma despreparada e culpada cristaliza a mente em situações, pessoas e sentimentos.

b) — Verdadeiros dramas de consciência se desenrolam no palco ensandecido da mente que faliu deliberadamente.

c) — A cristalização mental define-se por “uma parada no tempo e no espaço”.

d) — Vibrações pesadas e angustiosas constituem cativeiro para a alma.

e) — Amigos espirituais, em nome do Amparo Divino, observam, acompanham, contemplam e ajudam os que ingressam no mundo espiritual em posição de desajuste.

O esforço próprio é lei em todos os cometimentos evolutivos.

Na Terra e no Espaço, ninguém aprende, nem evolui, se não souber aproveitar o concurso, valioso, dos Benfeitores Espirituais.

Encarnados ou desencarnados, condicionamo-nos aos próprios recursos e valores espirituais; contudo, dadas as nossas milenárias imperfeições, dependemos, e muito, do auxílio dos Missionários da Luz…

Martins Peralva

Livro: Pensamento de Emmanuel – 40

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