Trojan em grupos espíritas

Trojan em grupos espíritas

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Por Marco Milani

Trojan Horse, ou simplesmente trojan, é um tipo de programa eletrônico malicioso que pode entrar em um computador disfarçado como um programa comum e legítimo. Ele serve para possibilitar a abertura de uma porta de forma que usuários mal-intencionados possam invadir o computador e roubar ou destruir dados, além de outros danos.

O termo é derivado da história narrada por Homero no poema Odisseia, no século VIII a.C., sobre o estratagema grego de simular uma retirada do cerco de guerra que promoviam à cidade de Troia e deixar um grande e ornado cavalo de madeira com soldados escondidos em seu interior. Os troianos, ao se depararem com o inusitado objeto, decidiram levá-lo para dentro da cidade fortificada. Durante a noite, os soldados gregos saíram do cavalo, mataram os sentinelas e permitiram a entrada de seu exército, dominando toda a cidade.

Assim como trojans, uma modalidade de invasão perniciosa está se fazendo perceber não em computadores ou em cidades, mas em grupos espíritas.

Disfarçadas de propostas modernas e doutrinariamente legítimas, pautas político-ideológicas, típicas de programas partidários, tentam se infiltrar na tribuna e em outras atividades de organizações espíritas por meio de militantes que se passam por adeptos preocupados e conscientes dos problemas sociais. Procurando camuflar a real intenção, a invasão segue a cartilha gramsciana para a conquista de posição, formação de consenso e de pensamento hegemônico.

O alerta

Allan Kardec, em mensagem dirigida aos espíritas lioneses em 1862, já alertava sobre a armadilha preparada por adversários encarnados e desencarnados do espiritismo, a qual buscava levar à casa espírita a discussão política.

“Devo ainda assinalar-vos outra tática dos nossos adversários, a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada e que, a justo título, poderiam despertar suscetibilidades e desconfianças. Não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quando se refere à política e a questões irritantes; a tal respeito, as discussões apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém terá nada a objetar à moral, quanto esta for boa.” (Allan Kardec, Revista Espírita, fev.1862)

A transformação social, para Kardec, não ocorrerá de maneira impositiva e totalitária ao indivíduo, mas de maneira oposta, decorrente da melhoria do indivíduo respeitando-se a liberdade de consciência de cada um.

“Procurai no espiritismo aquilo que vos pode melhorar: eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais realmente úteis serão uma consequência natural; trabalhando pelo progresso moral, lançareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras, e deixareis a Deus o cuidado de fazer com que cheguem no devido tempo. No próprio interesse do espiritismo, que é ainda jovem, mas que amadurece depressa, oponde uma firmeza inquebrantável aos que quiserem vos arrastar por uma via perigosa.” (Allan Kardec, Revista Espírita, fev.1862)

Maturidade e sensatez

Não é de hoje que militantes reformistas sociais, que acreditam estar em luta contra determinados segmentos da sociedade, alardeiam que os espíritas, em geral, são alienados, pois deveriam içar com veemência bandeiras político-ideológicas, necessariamente as mesmas que tais reformistas seguram, pois se forem de cores diferentes, aí o discurso muda e serão considerados párias a serem banidos da vida em comunidade e não poderiam ser considerados espíritas.

O que faz com que adeptos, com as mais diferentes convicções partidárias, compartilhem e desenvolvam atividades na casa espírita em ambiente respeitoso é, justamente, a inexistência de discussões dos chamados “assuntos irritantes” que Kardec ressaltou.

Certamente, em um mundo de expiações e provas não se pode esperar plena harmonia nas relações sociais, inclusive dentro do centro espírita, mas abrigar o vírus da discórdia e da divisão por motivos político-ideológicos é a receita para que os sentinelas da razão sejam abatidos e prevaleçam as paixões partidárias, culminando com o afastamento de colaboradores ou a dissolução da própria instituição.

Na condição de cidadão, esse mesmo espírita tem liberdade de se expressar e abraçar a corrente ideológica que achar a mais adequada e o fato de não levar suas preferências políticas para serem discutidas no centro espírita não o caracteriza como alienado, ao contrário, demonstra maturidade, sensatez e respeito pela organização que colabora e por seus companheiros de trabalho.

Marco Milani

Diretor do departamento de doutrina da USE- SP

Fonte: correio.news

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