Reencarnação: uma fonte de esperança

Reencarnação: uma fonte de esperança

Por Deolindo Amorim

Embora já se saiba que a doutrina espírita é reencarnacionista, nem todos quantos batem às portas de sociedades espíritas, em situações graves ou para “chorar as suas mágoas”, estão em condições de compreender prontamente certos problemas à luz da reencarnação. Em determinados casos, o esclarecimento deve ser muito prudente, mas sempre compreensivo, pois é inútil, e às vezes contraproducente, começar falando logo em “resgate de dúvidas do passado”, “situações cármicas” etc, se a pessoa aflita está inteiramente fora do assunto e vem de um ambiente todo estranho ao meio espírita.

Quem está nessa situação, sem saber o que fazer nem que rumo tomar, procura o meio espírita justamente para receber uma palavra de conforto, uma prova de solidariedade humana, o apoio espiritual de que necessita, mas não pode apreender logo umas tantas elucidações, justamente porque a mente ainda está muito tumultuada. É um problema psicológico.

Adequação do diálogo e acolhimento

Há explicações que até desorientam, embora sejam bem intencionadas. Figuremos, como simples ilustração, o caso de uma senhora que, na condição de mãe sofredora, profundamente deprimida porque o filho “morreu afogado”, sem nenhuma noção do que seja doutrina espírita, sem jamais haver pensado em reencarnações, recorra a um centro espírita como ponto de apoio e conte o seu caso, “banhada em lágrimas” inconsoláveis.

Situação dificílima, evidentemente. E exige muito tato, muita paciência. Imagine-se, agora, se alguém, com a intenção caridosa de esclarecer e ajudar, comece logo dizendo: É assim mesmo. É a lei de causa e efeito. Conforme-se com a realidade. É a sua prova, porque a senhora já deve ter afogado alguém noutra existência!…

Francamente, parece mais crueldade do que caridade. Certas maneiras de interpretar a reencarnação podem até comprometer a própria lógica da doutrina.

É preciso aguardar o momento psicológico para entrar no assunto. Não se deve usar a mesma linguagem para todas as pessoas, como não se deve apresentar o mesmo fio de argumentos em todos os casos, em todas as circunstâncias, a propósito de todas as situações.

Ainda assim, é bom frisar, há ocasiões em que o modo de encarar os problemas pelo prisma reencarnacionista, ao invés de esclarecer, lançam ainda mais confusão. A experiência que o diga.

Rigidez no entendimento sobre reencarnação

Quem estuda a doutrina espírita já sabe muito bem que a reencarnação é um princípio universal, válido no tempo e no espaço. É o caminho lógico da compreensão da Justiça divina, a resposta filosófica aos chamados desafios da natureza. Mas acontece que, às vezes, se leva a reencarnação para um terreno muito rígido e casuístico, esquecendo-se de que a reencarnação não anula totalmente o livre-arbítrio, não significa o puro fatalismo.

A reencarnação deve ser entendida como lei geral. Sob a lei, que é inevitável, mas não é somente punitiva, porque proporciona meios de reparação perante a justiça divina, assim como oferece campo para o desempenho de missões nobres e grandiosas na Terra, sob a lei repita-se – cada qual pode fazer as suas opções, ajustar-se a esta ou aquela conjuntura.

Ninguém foge à lei, é certo. Quem causa prejuízo aos outros terá de responder pelos seus atos, mas justamente aí é que se nota a inconveniência de certas explicações muito restritivas e prejudiciais ao entendimento da suprema justiça, que fica parecendo rígida demais, senão até desumana!

Questão de lógica

A pessoa que causou afogamento não poderá voltar à Terra com a incumbência, de trabalhar como salva-vidas, uma profissão humanitária, a fim de reparar o que fez? E não será muito mais útil do que voltar para ser afogado?… É questão lógica. O espírito reencarnado pode interferir no carma, ainda que não possa desviar o curso da lei.

Há várias maneiras de saldar dívidas do passado e reparar os danos causados ao próximo. É a perspectiva da reencarnação. Algumas interpretações da reencarnação, muito ao pé da letra, entretanto, levam certas pessoas a uma confusão ainda maior, quando não saem dos centros dizendo que o ensino espírita é um absurdo. Infelizmente.

No entanto, a reencarnação, quando bem compreendida, abre uma janela nova ao espírito para que compreenda seguramente a grandeza e a perfeição da obra divina. A tese da reencarnação é também uma fonte de esperança.

Deolindo Amorim

Fonte: correio.news

Do acervo do jornal Correio Fraterno, edição de dezembro de 1980.

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