JESUS, MODELO E GUIA

Jesus, Modelo e Guia

Luiz Julião Ribeiro

Emmanuel, na mensagem intitulada Hegemonia de Jesus, no livro Caminho, Verdade e Vida, pela psicografia de Francisco C. Xavier, nos esclarece:

Antes de Abraão, ou precedendo os grandes vultos da sabedoria e do amor na História mundial, o Cristo já era o luminoso centro das realizações humanas. De sua misericórdia partiram os missionários da luz que, lançados ao movimento da evolução terrestre, cumpriram mais ou menos bem, a tarefa redentora que lhes competia entre as criaturas, antecedendo as eternas edificações do Evangelho. (XAVIER, 2016b).

Pelo menos parte da Humanidade ainda não compreendeu que a Natureza não se autoconstrói e não se administra a si mesma e que uma obra desse jaez não pode prescindir de um construtor, mantenedor e administrador que corresponda à sua real magnitude.

Na monumental obra A Caminho da Luz, Emmanuel, mais uma vez pela psicografia missionária de Chico Xavier, enfatiza a inigualável missão de Jesus Cristo, por determinação direta de Deus, junto ao nosso planeta Terra, incumbindo o Divino Mestre de promover não só a criação desta bela morada, mas sua condução ao seu supremo e fatal destino de mundo celeste ou divino, quando será habitado por Espíritos puros, que poderemos ser nós mesmos (XAVIER, 2016a).

Assim, dentro do contexto dessa singela reflexão, podemos conceituar modelo como aquele ou aquilo que deve ser imitado por representar a expressão de perfeição que se pode almejar, e guia como o que deve ser seguido porque conhece, sem erros, o caminho reto a ser percorrido; já o exemplo é aquele ou aquilo que serve de aprendizado, por evidenciar ora o erro ora o acerto e por isso mesmo constitui advertência ou referência relevante para os aprendizes.

Todos os apóstolos de Jesus são exemplos vivos deixados para a Humanidade, não só por terem convivido diretamente com o Cristo, mas porque vieram à Terra devidamente preparados para a elevadíssima missão de contribuírem direta e decisivamente com a semeadura da mais importante mensagem de amor e sabedoria que Deus enviou ao orbe: a mensagem cristã.

Entretanto, iremos nos referir à participação de apenas um deles, o intrépido Apóstolo Pedro, cujos atos diante de Jesus constituem lições grandiosas para as nossas mais profundas e profícuas reflexões.

Narra-nos o Evangelista Mateus (16:13 a 23) sobre aquele momento em que Jesus, pela primeira vez, anunciou que iria ser perseguido pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, quando então seria preso e morto, mas enfatizando que ressuscitaria ao terceiro dia.

Pedro indignou-se com tal revelação, para ele absurda, e protestou com veemência, dizendo: “Que Deus não permita isso, Senhor! Isso não te acontecerá!” (Mateus, 16:22).

“Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás, tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” (Mateus, 16:23).

Extrai-se dessa passagem a lição de que Pedro, diante da gravidade do inesperado anúncio, agiu com sincero, mas limitado impulso de visão humana, como de ordinário ainda fazemos, não vislumbrando os elevados auspícios espirituais, tanto assim que Jesus decretou: “teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens”.

Os dias transcorreram e, naquela inesquecível noite de quinta-feira, quando Jesus efetivamente foi preso no Monte das Oliveiras, realizou Ele, antes de sua prisão, um encontro de despedida, compartilhando com seus apóstolos uma ceia muito mais espiritual do que material, durante a qual ministrou seus últimos ensinamentos, entre os quais o da humildade, e o fez lavando os pés de seus seguidores e enxugando um a um com uma toalha com a qual se cingia.

Registram as Escrituras que por fim chegou a vez de Pedro, que tudo observava sem nada compreender e, por isso mesmo, recusou com veemência que o Mestre lhe lavasse os pés, conforme consta no Evangelho de João, (13:6 a 9):

Chegou a Simão Pedro. Mas Pedro lhe disse: Senhor, queres lavar-me os pés! Respondeu-lhe Jesus: O que faço não compreendes agora, mas compreendê-lo-ás em breve. Disse-lhe Pedro: Jamais me lavarás os pés!… Respondeu-lhe Jesus: Se eu não os lavar, não terás parte comigo…

Observa-se que, para Pedro, a prática da humildade era uma atitude indigna, aviltante, humilhante e inconcebível, por ser, em sua compreensão espiritual, injusta, como ainda hoje muitos de nós concebemos.

Salienta-se nessa passagem que o Mestre, na sua celestial sabedoria, inverte as práticas pedagógicas e, em vez de pedir que lhe lavem os pés, apresenta o modelo de perfeição e humildade, servindo a todos.

Escreveu o Evangelista Lucas (22:31 a 34) que, no transcurso da mesma Ceia, Pedro asseverou enfático que estava pronto para ser preso e até mesmo morto em companhia de Jesus, nos seguintes termos:

Simão, Simão, eis que Satanás vos reclama para vos peneirar como um trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos. Pedro disse-lhe: Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão quanto para a morte. Jesus respondeu-lhe: Digo-te, Pedro, não cantará hoje o galo, até que três vezes hajas negado que me conheces.

Sabe-se que logo após, quando interpelado por funcionários do palácio do sumo sacerdote Caifás, Pedro efetivamente negou por três vezes que conhecesse o Cristo ou fizesse parte de seu grupo e, ao ouvir o canto do galo, lembrou-se da sábia advertência e deixou o palácio chorando amargamente, reconhecendo seu momento de fraqueza.

Já tinha terminado a ceia e Jesus se encontrava agora no Monte das Oliveiras, na parte onde havia um jardim, em companhia de onze dos seus discípulos, com exceção de Judas Iscariotes, que havia ido ao encontro das autoridades de Jerusalém.

Jesus realizou sucessivas orações, sabedor que era de que havia chegado o momento de sacrificar sua integridade moral e a própria vida por amor à Humanidade.

Aguardava jubiloso, quando se ouviu o burburinho da multidão de servos, guardas e autoridades que se aproximavam eufóricos e fortemente armados para executar a nefasta prisão.

O próprio Jesus protesta, não contra a prisão, mas por causa do aparato bélico utilizado para prendê-lo, conforme narrado por Lucas (22:52 e 53):

Saístes armados de espadas e varapaus, como se viésseis contra um ladrão. Entretanto, eu estava todos os dias convosco no templo, e não estendestes as mãos contra mim; mas esta é a vossa hora e o poder das trevas.

Pedro surpreende e dá o seu testemunho de coragem, lealdade e amor ao Mestre, sacando da espada e partindo para a luta, em legítima defesa do Divino Cordeiro, assim narrado o episódio por João (18:10 a 12):

Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. Mas Jesus disse a Pedro: Enfia a tua espada na bainha! Não irei beber eu o cálice que o Pai me deu? Então a corte, o tribuno e os guardas dos judeus prenderam Jesus e o ataram.

Com isso, Jesus primeiramente evitou uma tragédia de enormes proporções, uma vez que Pedro, com a sua impetuosidade e demonstração de coragem humana, havia deflagrado a batalha sangrenta. Além disso, Jesus apresentava a outra face, a do perdão e da coragem espiritual, como alicerces insubstituíveis da paz.

Observa-se que o grande apóstolo sempre foi sincero, quando dizia que estava preparado para morrer junto com o Mestre, mas fica claro que ainda não estava preparado para viver com Ele, renunciando à própria vida, uma vez que necessitava a todo tempo de sua amorosa proteção, como de resto todos nós ainda carecemos dela profundamente.

O certo é que Jesus, o enviado de Deus, em momento algum utilizou da violência para se defender e jamais autorizou que alguém o fizesse, considerando que aquele que ensinou a amar os inimigos só se utiliza de uma única arma: o amor.

Sabemos que a missão de Jesus era eminentemente espiritual, pois representava a presença de Deus entre nós, bem como de seus auxiliares diretos, os apóstolos, os quais, já àquela época, eram Espíritos devidamente preparados para o celestial mister.

A propósito da real posição espiritual dos colaboradores mais diretos de Jesus, quando de suas missões entre nós, o Espírito Emmanuel, na monumental obra Paulo e Estêvão, psicografada pelo não menos apóstolo de Jesus, Francisco Cândido Xavier, no capítulo 8, intitulado O martírio em Jerusalém, revela a conclusão a que chegou o Apóstolo dos Gentios, Paulo de Tarso, no que concerne aos Apóstolos do Cristo, nos termos seguintes:

A palavra de Tiago toava imantada de bondade e sabedoria e valia por consoladora revelação.

Os galileus eram muito mais sábios que qualquer dos rabinos mais cultos de Jerusalém. Ele, que chegara ao mundo religioso por intermédio de escolas famosas, que tivera sempre, na mocidade, a inspiração de um Gamaliel, admirava agora aqueles homens aparentemente rústicos, vindos das choupanas de pesca, que, em Jerusalém, alcançavam inesquecíveis vitórias intelectuais, somente porque sabiam calar quando oportuno, aliando à experiência da vida uma enorme expressão de bondade e renúncia, à feição do Divino Mestre. (XAVIER, 2017; grifo nosso).

Depois das irretocáveis palavras do escolhido de Jesus para disseminar o seu Evangelho na Ásia, acerca da grandeza espiritual dos apóstolos, resta-nos apenas mergulhar no oceano do silêncio, para melhor refletir sobre tudo.

Luiz Julião Ribeiro

Revista Reformador – Setembro 2017

Fonte: G.E. Casa do Caminho de São Vicente

Referências:

  • KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 8. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB 2017. cap. 3, its. 3 e 19.
  • XAVIER, Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016a. cap. 1 – A gênese planetária.
  • Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. 11. imp. Brasília. FEB, 2016b. cap. 133.
  • Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 45. ed. 11. imp. Brasília: FEB. 2017. Pt. 2.
Esta entrada foi publicada em Artigos, Família, Sociedade. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *