TRANSEUNTES

TRANSEUNTES

Joanna de Ângelis

Desejaria ser como eles.

Renteiam contigo, produzindo em alta escala com a leviandade de quem ignora o tesouro de que dispõem.

Uns falam, e o calor das ovações que recebem desata-os em sorrisos largos e festivos que te encantam.

Outros escrevem, e as moedas da admiração que lhes chegam as mãos se convertem em adornos faiscantes que te fascinam.

Alguns recuperam a saúde no próximo enfermo com aplicação de passes, e o respeito de que se sentem distinguidos te emociona.

Muitos escutam orientação segura, e são classificados como seres especiais, apresentando-se como se o fossem, despertando-te inveja.

Diversos vêem homens que vivem além da esfera física, e são homenageados pelo carinho de todos, enquanto fremes de angústia.

Vários materializam desencarnados e coletam os pingentes brilhantes da admiração geral, que te deslumbram.

Outros mais, ainda, realizam prodígios cercados de consideração e louvaminhas, em febril contentamento que te desvanece.

* * *

Consignas, algo decepcionado, que as tuas possibilidades mediúnicas são escassas, dúbias mesmo, deixando-te algo confuso em muitas circunstâncias…

As Entidades que te utilizam os recursos, consideras, são tão doentes e perturbados quanto tu mesmo.

Nada dizem nem realizam de original, que se constitua novidade.

Reportam-se a acontecimentos triviais, referem-se à dor, à miséria, à decepção de que se acham possuídos…

Nem palavras candentes.

Nem páginas brilhantes.

Nem recuperações orgânicas estupefacientes.

Nem informações retumbantes.

Nem visões celestes.

Nem ectoplasmias atraentes.

Somente se referem à necessidade de renovação e trabalho.

Além deles, os que te buscam são obsidiados, inquietos, doentes, pessoas na última quadra da vida…

Como renovar-se, porém, e trabalhar, remoqueias intimamente, se foste tão pouco aquinhoado?

Sentes a necessidade de difundir a luz que se irradia da Mensagem Espírita, no entanto…

Não te perturbes, não desanimes.

O Espiritismo se apresenta e se afirma pela conduta dos que o expõem sem se impor a ninguém.

Os transeuntes da carruagem dourada da mediunidade deslumbrante são como tu mesmo, enfermos graves em desfile da ilusão.

Demandam o túmulo, que os aguarda inexoravelmente, enganados, enganadores…

São doentes do espírito em adiantado grau de desequilíbrio.

É verdade que portam o tesouro medianímico em alta expressão fenomênica para que não digam ignorar, mais tarde, as informações do Mundo Imortal para onde seguem.

Enquanto se divertem, aumentam compromissos, agravam responsabilidades.

Todos os louvores que recebem ficarão com a massa carnal, silenciosos e inexpressivos no sepulcro.

Muitos, no entanto, antes mesmo do retorno à vida espírita, constatam, no abandono de que se vêem objeto pelos seus admiradores, também transeuntes da vida, o travo de fel e o azedume do arrependimento, tarde demais.

Mediunidade é compromisso com a consciência sedenta de recomposição do passado. É meio de servir com segurança e desprendimento, por ensejar trabalho a outrem, por intermédio de alguém…

Ajuda, pois, aqueles que no além túmulo sofrem e te advertem com a aflição deles.

Talvez não sejas um grande médium, conhecido e disputado pela louvação dos homens; no entanto, procura constituir obreiro do amor, que não é ignorado pelos infelizes, podendo ser identificado pelos sofredores da Erraticidade.

* * *

Jesus, o impoluto Médium de Deus, quando esteve conosco e deu início ao seu apostolado de amor excepcional, esqueceu, deliberadamente, magos e adivinhos do seu tempo, sensitivos de renome e profetas conhecidos, videntes famosos e escribas célebres, retóricos apaixonados e curadores distinguidos para selecionar atormentados, doentes, sofredores e perturbados das cercanias das cidades por onde deambulava; erguendo do lodo e amparando do abismo os que se tresloucaram para, com eles, levantar, como levantou, a mais duradoura e nobre construção que o espírito humano conhece: a redenção do homem.

Joanna de Ângelis

Psicografia de Divaldo P. Franco

Livro: Dimensões da Verdade – 27

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