DETERMINISMO E LIVRE-ARBÍTRIO

DETERMINISMO E LIVRE-ARBÍTRIO

Rogério Miguez

“Então veio a mim a palavra do Senhor: […] No momento em que eu falar acerca de uma nação, ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe.

E no momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ela fizer o que é mal perante mim, e não der ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.” (Jeremias, 18:7 a 10).

* * *

Tanto o futuro do homem quanto, especialmente, o da Humanidade estão criptografados nas profecias de origem divina, contidas na Bíblia Sagrada e proferidas por Jesus e seus emissários, os profetas. Algumas são de cunho determinístico e terão fatalmente que se realizar, como o declarou o Cristo em Mateus, 5:17 e 18, enquanto o cumprimento ou não de outras, como visto na epígrafe, está subordinado ao procedimento coletivo do ser humano, no emprego inviolável de seu livre-arbítrio.

Para o escritor Grove Wilson (1883-1954) – Newton, Kepler e Galileu formavam “o trio que havia forçado o Sol e as estrelas a contarem aos homens sua verdadeira história”.

Se trabalharmos também com dedicação e afinco, convenceremos as profecias a nos descerrarem seu seio e entregarem o ouro que tão zelosamente guardam no escrínio de sua intimidade.

Entrando diretamente na questão, coloquemo-la da seguinte forma: se o futuro está determinado e, por isso, pode ser previsto, então há um determinismo ou fatalismo, traçado pela Lei Divina, que pode abranger desde o minuto seguinte até os milênios futuros, tornando o homem um mero autômato no jogo da existência humana. Se isto está correto, onde fica, nesse universal e inexorável fluir, o livre-arbítrio humano? A explanação de Sua Voz, mentor de Pietro Ubaldi, lança esclarecedora luz sobre a questão:

Não confundais a ordem e a presença da Lei com um automatismo mecânico e um fatalismo absurdo. A ordem, já vos disse, não é rígida, mas contém espaços de elasticidade, possui subdivisões de desordem, de imperfeição; complica-se em reações, mas permanece ordem e lei no conjunto, no absoluto.

Um exemplo: ante a vontade da Lei tendes a vontade do vosso livre-arbítrio; mas é vontade menor, contida, circunscrita por aquela vontade maior; podeis vos agitar a vosso bel-prazer, mas sempre como num recinto, nunca fora dele.

Este movimento vos é concedido, porque é necessário que, num certo âmbito que vos diz respeito, sejais livres e responsáveis e possais assim, em liberdade e responsabilidade, conquistar a vossa felicidade.

Tenho resolvido, assim de passagem, o conflito, para vós insolúvel, entre determinismo e livre-arbítrio. Estes conceitos levar-vos-ão, depois, à concepção de uma moral científica e exata (1).

O tema já permeava, com um século de antecedência, a Doutrina Espírita e foi tratado exaustivamente por Allan Kardec em várias passagens de O livro dos espíritos, mormente nas questões 259, 526, 527, 859-a e 861, bem como na 872.

Nesta última, há um abalizado estudo do mestre intitulado “Resumo teórico do móvel das ações do homem” (2).

Atrevemo-nos a apresentar uma imagem singela que, de certa forma, poderá ilustrar o argumento. Suponhamos que certo passageiro embarque numa composição ferroviária em São José do Rio Preto com destino a Campinas, 350 km adiante, como nós mesmo costumávamos fazer na década de 1970. Os pontos de origem e de destino estão previamente traçados. Ele nada poderá fazer quanto a isso. No entanto, terá liberdade, durante a viagem, para almoçar no vagão-restaurante; caminhar do primeiro ao último vagão e vice-versa, se assim o desejar; dormir numa poltrona-leito ou no carro-dormitório; ler um jornal ou uma revista e até mesmo descer em alguma estação do caminho, nas escalas para embarque e desembarque, e tomar depois o trem seguinte. E o curioso é que, mesmo caminhando dentro do trem ao arrepio do movimento deste, ainda assim o passageiro avançará para a meta, porque, para cada passo dado a contrapelo, o comboio terá avançado vários metros.

Prisão cósmica

O mesmo, em tese, ocorre com os integrantes da Humanidade, em qualquer ponto do Universo. E mesmo antes do período em que o ser passa a integrar o reino humano, naquela fase em que o princípio espiritual – ainda não Espírito completamente formado – começa a se tornar consciente de sua existência. Quando ele desperta para a realidade exterior, já se vê encaixado (sem possibilidade de fuga) nesse gigantesco mecanismo universal que o conduz inexoravelmente pela trilha da evolução à estação de chegada, que é a perfeição no Infinito.

Ele não tem competência para deter esse movimento.

Poderá, no entanto, dentro de seu respectivo âmbito de influência, ao movimentar-se desde os pródromos da volição, fluir com ele naturalmente ou então embaraçar essa fluência, postando-se contra a corrente. Neste caso, seu panorama evolutivo se afunila, ele é mergulhado em planos mais condensados do Universo, onde, constrito nessa gaiola de espaço-tempo, se vê compelido a reconquistar sua antiga liberdade por meio da reescalada à posição de origem.

Observe o habitante da Terra:

Ele está chumbado a um planeta que se movimenta a cerca de 1.700 km por hora em torno de seu eixo, 107.000 km por hora em torno do Sol e 1 milhão de km por hora em torno da Via Láctea.

O que ele pode fazer em relação a isto? Pode acaso dizer “pare o mundo que eu quero descer”?

Aprende-se mais na Doutrina Espírita: como aquele passageiro que desceu numa estação para esperar o trem seguinte, o Espírito pode até “estacionar” ali por um tempo relativamente prolongado. Mas essa atitude negativa tem limite. Aprendemos com Kardec, em nossa luminosa Doutrina, que o Espírito não degenera: pode permanecer estacionário, mas não retrograda, (3) visto que “[…] O rio não remonta à sua nascente” (4).

Esse é um dos postulados básicos da Doutrina, e esta segundo o Codificador, “[…] é inquebrantável em sua base […]”; (5) grifo nosso.

É o caso do ricaço que, numa existência, abusa egoisticamente da riqueza, como na Parábola do Filho Pródigo, e, na encarnação seguinte, renasce numa condição de miserabilidade e vai comer alfarrobas com os porcos, para aprender a valorizar os bens terrenos.

Ou do político de intelecto poderoso e verve fácil, que ilude o povo, e volta com a mente destrambelhada, ou portador de deficiência da fala, para redimensionar suas atitudes e aprender a glorificar os dons conquistados, de acordo com a Lei Divina.

Essa estagnação pode até ser mais profunda, como no caso de Espíritos que são trasladados, em exílio, de planetas superiores para planetas inferiores, naquelas épocas de seleção planetária que ocorrem periodicamente no Universo.

É, porém, muito mais de forma do que de substância.

O Espírito nada perde do que já haja conquistado, malgrado algumas províncias de seu ser psíquico ficarem temporariamente segregadas da consciência normal, numa prudente operação espiritual de prevenção de recaídas.

É o que aprendemos com as Entidades Superiores, quando Kardec lhes dirige a seguinte pergunta:

Mudando de corpo, pode o Espírito perder algumas faculdades intelectuais, deixar de ter, por exemplo, o gosto das artes?

“Sim, se corrompeu sua inteligência ou a utilizou mal.

Além disso, uma faculdade qualquer pode ficar adormecida durante uma existência inteira, se o Espírito quiser exercitar outra que com ela não guarde relação. Neste caso, permanece em estado latente, para ressurgir mais tarde.” (6) (Grifo nosso).

Enfim, conquanto tratado aqui de forma ligeira, o assunto é realmente fascinante e merece mais profundas reflexões.

Dessa forma, determinismo e livre-arbítrio não se anulam reciprocamente, como seria a primeira impressão, mas coexistem, como bem informa Emmanuel, estabelecendo que o “[…] primeiro é absoluto nas mais baixas camadas evolutivas e o segundo amplia-se com os valores da educação […]”, cumprindo-nos “[…] reconhecer que o próprio homem, à medida que se torna responsável, organiza o determinismo da sua existência, agravando-o ou amenizando-lhe os rigores, até poder elevar-se definitivamente aos planos superiores do Universo”; (7) grifo nosso.

Segue na mesma esteira o esclarecimento de Sua Voz:

Todo ato é sempre livre em suas origens; não depois, porque então passa imediatamente a pertencer ao determinismo da lei de causalidade, que impõe as reações e as consequências.

O destino, como efeito que é do passado, contém por isso zonas de absoluto determinismo, mas a este se sobrepõe, a todo momento, a liberdade do presente, continuamente aproveitável, que tem o poder de imitir [introduzir] sempre novos impulsos e, nesse sentido, corrigir os precedentes […] (8).

Rede ativo-reativa

É possível, portanto, prever que o trem que deixa a cidade rio-pretana chegará a Campinas, porque isto já faz parte de um plano pré-traçado, que não deverá sofrer alterações em sua programação.

Mas prever o que determinado passageiro fará em uma das etapas da viagem (se preferirá dormir num vagão-dormitório ou numa poltrona-leito; se descerá em certa estação ou continuará a viagem até o fim), é entrar no campo do livre-arbítrio, da aleatoriedade da conduta humana, e, nesse campo, há alguns complicadores.

Supor o homem “[…] submetido a uma fatalidade inexorável, com relação aos menores acontecimentos da vida, é despojá-lo do seu mais belo atributo: a inteligência; é assimilá-lo ao bruto [….]”, pondera Kardec. Algumas linhas à frente, porém, deslindando em parte a questão, acena com alguns vetores importantes, adiantando que se fosse fortuito o futuro, se dependesse daquilo a que se chama acaso, “[…] se nenhuma ligação tivesse com as circunstâncias presentes, nenhuma clarividência poderia penetrá-lo e nenhuma certeza, nesse caso, ofereceria qualquer previsão […]”. O verdadeiro vidente – acrescenta – “[…] apenas prevê as consequências que decorrerão do presente […]”;(9) (grifo nosso).

Então, a dedução lógica é que passado, presente e futuro estão entrançados de tal forma numa complexa rede ativo-reativa que, numa certa porcentagem, a Humanidade será induzida a agir hoje sob a regência preponderante do lastro resultante de suas ações do passado, assim como projeta no futuro tendências e atitudes decorrentes de suas atividades do presente.

A previsão de tais fatos nos leva à cena do homem sobre a montanha (de que se vale o Codificador no citado capítulo), o qual tem uma visão abrangente do que ocorre na campina e, por isso, pode tomar certas providências, fazer determinadas revelações, antecipar o conhecimento de acontecimentos que estão fora do ângulo de visão dos habitantes da planície. Suponhamos, agora, que esse homem hipotético fosse o próprio Deus, ou seus mais altos Emissários, e aí teremos a gênese das coordenadas subjacentes que estabelecem as profecias.

Dizer, portanto, que o trem chegará a Campinas é o mesmo que dizer que a Humanidade atingirá a perfeição – e isto é determinismo.

Não é, porém, um determinismo inflexível quanto ao tempo de sua realização, mas elastecível, na medida em que a volição dos Espíritos e dos homens pode apressar ou retardar a sua consecução, conforme a previsão constante no Planejamento Divino – e isto é livre-arbítrio.

Essa providencial elasticidade do determinismo divino pode ser vista na resposta obtida por Kardec em uma de suas importantes consultas às Entidades Superiores:

  1. – Disseram os Espíritos que os tempos são chegados em que tais coisas [acontecimentos sociais graves] têm de acontecer: em que sentido se devem tomar essas palavras?
  2. – Em se tratando de coisas de tanta gravidade, que são alguns anos a mais ou a menos?

Elas nunca ocorrem bruscamente, como o chispar de um raio; são longamente preparadas por acontecimentos parciais que lhes servem como que de precursores, quais os rumores surdos que precedem a erupção de um vulcão. Pode- -se, pois, dizer que os tempos são chegados, sem que isso signifique que as coisas sucederão amanhã. Significa unicamente que vos achais no período em que se verificarão (10). (Grifo nosso).

Em suma: a Lei Divina, em sua dupla compleição de fatalismo e liberdade, irá cumprir se de qualquer forma para aqueles que têm o que ressarcir perante a Consciência Cósmica (ou seja, toda a Humanidade), apresentando-se de forma impositiva para os recalcitrantes e resiliente para os dóceis e inclinados à obediência.

Rogério Miguez

Revista Reformador – Março 2020

rogmig55@gmail.com

Referências:

  • 1 UBALDI, Pietro. A grande síntese. 9. ed. São Paulo: Lake. cap. 7 – Aspecto Estático, Dinâmico e Mecânico do Universo, p. 41.
  • 2 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2019.
  • 3 ______. ______. q. 118.
  • 4 ______. ______. q. 612.
  • 5 ______. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 8, n. 2. fev. 1865. Perpetuidade do Espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2015.
  • 6 ______. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2019. q. 220.
  • 7 XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2018. q. 132.
  • 8 UBALDI, Pietro. A grande síntese. 9. ed. São Paulo: Lake. cap. 77 – Destino – o direito de punir, p. 300.
  • 9 KARDEC, Allan. Obras póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 1. ed. 1. reimp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2011. cap. A segunda vista, it. Conhecimento do futuro. Previsões.
  • 10 ______. ______. 2a pt., cap. A minha primeira iniciação no Espiritismo, 12 de maio de 1856 (Sessão pessoal em casa do Sr. Baudin) Acontecimentos.
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