Destino… Fatalidade… Livre-Arbítrio…

Destino… Fatalidade… Livre-Arbítrio…

A CONVIVÊNCIA HARMÔNICA ENTRE O DESTINO, A FATALIDADE E O LIVRE-ARBÍTRIO

Rogério Miguez

Quem não deseja saber como modificar o seu próprio destino? Quem não aspira obter revelações sobre o futuro para, de posse destes informes, construir com mais segurança a sua própria caminhada? Quem não almeja tomar de maneira absoluta as rédeas de sua própria vida e seguir conforme seus anseios, ao sabor de seus próprios ventos, segundo apenas o seu livre arbítrio? O tema é palpitante.

Evidentemente, a temática considera apenas os espiritualistas, os crentes em um ou muitos deuses e igualmente na continuidade da vida, visto que não há qualquer sentido em se debater o tema sob a óptica puramente materialista, considerando se que, para se acreditar em destino, dever-se-á crer igualmente em uma entidade superior, delineando, segundo seus princípios e desejos, os nossos particulares rumos.

Para iniciar uma breve reflexão sobre assunto tão importante, seria preciso primeiramente avaliar se do ponto de vista espírita há destino. Os nossos dicionários, enciclopédias das palavras, de modo geral, definem destino como um conjunto de acontecimentos alcançando-nos de modo inevitável, inexorável, como sinônimo de fatalidade, sina, sorte.

Dentro desta linha de entendimento, em princípio, não poderíamos alterar o desfecho de nossa existência, pois não teríamos como modificar as circunstâncias, ou conjunção de fatos, a nos atingir fatalmente, mais cedo ou mais tarde.

Graças ao Bom Deus, assim não se dá!.

Com efeito, se assim fosse, não haveria mérito, tampouco responsabilidade sobre qualquer ato, considerando não ser possível escapar ou enganar o implacável destino. Tudo que fizéssemos, de bom ou de mau, seria tempo perdido, pois nada mudaria a nossa sorte, muito menos a daqueles a quem endereçássemos nossos esforços e ações.

Outrossim, perguntamos:

por qual razão possuímos livre arbítrio? esta faculdade que tem o Espírito para determinar sua própria conduta, construída cuidadosamente ao longo de numerosas encarnações, seria totalmente inútil e ineficaz, uma vez que o seu exercício se mostraria impotente para alterar a implacável realidade futura.

Adicionalmente, a Lei do Progresso não faria mais nenhum sentido: afinal, progredir para quê, se o futuro está delineado? Ademais, pela prece podemos louvar, agradecer ou pedir. Em relação à última possibilidade, se tornaria uma ação na maior parte dos casos inócua, porquanto nada obteríamos em resposta às nossas súplicas, por mais fervorosas fossem, pois, de modo geral solicitamos mudanças e benesses para o futuro no quadro material de nossas existências e dos que nos cercam, exceção feita às petições de ordem moral, quando pertinentes, que poderiam ser atendidas normalmente.

A ideia de um destino preestabelecido está relacionada à fatalidade, sendo oportuno conhecer as pouquíssimas propriamente ditas fatalidades.. Elencamos aquelas recolhidas até o momento da consoladora Doutrina:

• Atingir a plenitude da evolução, representada pela aquisição de uma perfeição relativa, ou seja, o fatalismo da evolução é para o equilíbrio, a ordem, o bem, e a destinação é para a felicidade, quando consolidaremos a vitória definitiva sobre nós mesmos e trabalharemos mais próximos de Deus, contribuindo para o cumprimento de seus sábios desígnios.

• O instante da morte é uma fatalidade, uma vez que, dele, não se pode escapar, e o momento em que devemos reaparecer também o é.

• Vivenciar provas, expiações ou missões, previamente selecionadas e discutidas na erraticidade, conjugando as deliberações do livre-arbítrio e as ponderações dos Espíritos responsáveis pela nova reencarnação, tudo baseado no mapa de realizações construído em existências passadas do futuro reencarnante. Como exemplos destas escolhas temos: gênero ou causa da morte, doença específica que surgirá em determinado momento de nossa próxima existência, significativo revés econômico, dificuldade familiar de monta, grandes dores morais como resultado de infortúnios diversos, limitação física de nascença oriunda de uma deficiência perispiritual, ou seja, alguns aspectos materiais na existência podem constituir fatalidades.

Um ponto importante sobre as decisões e opções tomadas antes de reencarnar é que este ajuizamento conjunto com os Espíritos mais sábios ocorre quando o reencarnante possui uma bagagem de evolução tal, viabilizando ser frutífera esta interação; caso contrário, os grandes marcos da vida são inteiramente determinados pelos responsáveis por esta nova existência na Terra.

Esta realidade nos faz perceber estar a fatalidade tão mais presente na vida do Espírito quanto menos evoluído ele se encontrar.

Contudo, vale a pena lembrar, as consequências da vivência destas escolhas ou determinações dependem da forma como o Espírito enfrenta estas situações, ou seja, os efeitos morais dos acontecimentos nunca são fatais.

É interessante ponderar que mesmo estes grandes marcos materiais em nossa existência podem sofrer pequenos ajustes, podem ser replanejados, dependendo de como vivemos, da forma como aproveitamos as oportunidades oferecidas pela vida. Desta forma, a época ou gênero da morte poderia ser alterada caso estivéssemos: praticando muita caridade, buscando fazer apenas o bem ao próximo, levando uma vida produtiva do ponto de vista moral, pessoas estivessem dependendo de nossa ajuda. Desta forma, o momento da desencarnação poderia ser adiado, não por muito tempo, raro mecanismo em mundo de provas e expiações conhecido por moratória; por outro lado, caso conduzamos a nossa existência da forma “padrão”, sem grandes sacrifícios e conquistas morais, observando conforme o dito popular apenas o nosso umbigo, os grandes marcos se farão presentes e impostergáveis.

No entanto, cumpre ainda notar sempre existir no homem a liberdade de optar pelos atos da vida moral e como reagir às tentações, um campo totalmente aberto, incerto e imprevisível, sujeito às escolhas de conduta de cada um, ou seja, à vontade individual.

• Há considerável fatalidade nos reinos mineral e vegetal; nestas fases da evolução quase tudo acontece segundo as leis básicas que regem a matéria – químicas, físicas e biológicas -, considerando que há certa imprevisibilidade na natureza subatômica da matéria.

É pertinente esclarecer sobre o uso do conceito de fatalidade pela mídia e a sociedade, pois em linhas gerais está completamente desvirtuado. Os acidentes espetaculares causando mortes de pessoas não estão nos desígnios de Deus, quando o autor estava: embriagado ou drogado, dirigindo em velocidades acima do permitido, com veículo adulterado em seus componentes básicos, não possuía habilitação, entre outras causas, ocorrendo nestes casos apenas a imprudência do agente; e se este não for julgado pela sociedade da forma correta, o será pelas Leis Divinas.

Se estes acidentes fossem fatais, predeterminados, o responsável teria renascido com a “missão” de matar um semelhante, impondo Deus previamente uma conduta absurda ao causador do desastre. Este entendimento representa um absoluto despropósito em relação ao amor de Deus por todas as suas criaturas.

Além de classificar por fatalidade os acidentes espetaculares do cotidiano, criamos uma outra fatalidade para justificar a morte “prematura” pela chamada bala perdida. O espírita está ciente de que não há acaso nas Leis Divinas, nenhum imprevisto existe regendo ocorrências, ainda mais deste tipo; sendo assim, a bala jamais estará perdida, esta interpretação sugere que Deus não estaria ciente do que viria acontecer, estava “desatento”, e que a morte do atingido pela bala perdida se deu sem controle, antecipadamente, ou seja, o indivíduo morreu antes da hora esperada.

A onisciência e onipotência de Deus se chocam frontalmente com esta incorreta hipótese.

Ninguém há que acreditar ter nascido sob a sina de uma má ou boa estrela, vivendo desta forma sob uma fatalidade considerada imerecida em relação à primeira estrela. Quando os acontecimentos possuem uma característica repetitiva em termos de fracassos e sucessos, respectivamente, devem-se em alguns casos aos acertos prévios que fizemos na erraticidade antes de para a Terra voltarmos.

Continuadas aparentes desgraças ou repetidos triunfos, nada mais representam do que verificações de aprendizado, talvez sejam provas, que devem ser encaradas naturalmente, solicitando, ao considerarmos as primeiras, muita paciência e perseverança; quanto aos segundos, jamais nos imaginarmos privilegiados, não permitindo que o orgulho ou a vaidade nos alcancem na infantil suposição de que tudo que fazemos dá certo e de que fomos agraciados pelo dedo de Deus ao nascer. Além disso, continuados fracassos podem ser resultado do despreparo e inaptidão do indivíduo, e seguidos sucessos podem caracterizar uma pessoa inteligente e perspicaz para só se lançar em empreitadas em que vislumbre maiores chances de êxito: não há azar tampouco sorte no ordenamento celestial.

A propósito, jamais deveremos bater às portas dos chamados magos, bruxas, videntes ou adivinhos, os auto-intitulados profetas, para nos informar sobre o que está por vir, qual seria o nosso “glorioso e esplendoroso” destino. De modo geral estes exploradores da fé e da ignorância popular nada mais são do que aplicados aproveitadores, astutos interlocutores, a maioria nem sequer é médium, não possuindo qualquer dom para nos instruir sobre o porvir. Habilmente treinados, muitos sabem o que as pessoas desejam conhecer, seus anseios, dúvidas ou apreensões e, por meio de perguntas simples, vão delineando as expectativas do particular consulente, finalizando por dizer exatamente aquilo que mais agrada ao incauto. Ao final, aguardam ávidos alguma recompensa monetária devida aos seus espontâneos préstimos “mediúnicos”. Como resultado, todos ficam muito satisfeitos, o iludido e o falso iluminado.

Informações sobre o futuro, quando úteis, são apresentadas de forma natural, sem que a pessoa pergunte ou mostre interesse em conhecer. Às vezes, podem ser reveladas, mas em caráter particular e sem qualquer expectativa de remuneração.

Conclui-se, pelos exemplos citados anteriormente, que o conceito de fatalidade não se prende apenas a um desfecho ruim, conforme alguns acreditam; a fatalidade pode conduzir a um bom resultado sem deixar de ser fatal, sendo apenas a resultante da Lei de Causa e Efeito. Este justo postulado divino é neutro, não comporta preferências nem tendências.

Como se denota, as fatalidades são em número muito reduzido, relacionando-se a acontecimentos e não a resultados, e não poderia ser diferente; se assim não fora, seríamos “autômatos” sem qualquer controle sobre as nossas existências. Contudo, não nos iludamos, há certos compromissos assumidos antes de reencarnar, poucos, que não podem ser alterados. Sendo assim, a visão espírita no que tange a este fascinante tema é intermediária entre os extremos do tudo está escrito e do seu oposto, nada está escrito, tendendo para o último, ou seja, pouco está escrito.

Então, em resumo, podemos alterar o destino?

Sem sombra de dúvida! Trabalhando dedicadamente agora no presente, esforçando-nos para aprender e agir corretamente, criamos condições de esperar um futuro melhor e diverso de qualquer leviano prognóstico que porventura nos tenha sido informado, porquanto, com a existência do livre-arbítrio e da razão há sempre parcial fatalidade, e, se esta fosse absoluta, não poderia haver responsabilidade, tampouco mérito pelos atos praticados, sejam estes quais forem.

A obra divina é perfeita, suas leis são justas e equilibradas, razão por que há harmonia e estabilidade entre conceitos aparentemente tão antagônicos, tais como: destinofatalidade e livre-arbítrio, o último possuindo por esteio a razão.

Somos Espíritos imortais, já tivemos e ainda teremos inúmeras existências.

Comparando este conjunto de vivências corporais que individualizam a caminhada evolutiva dos Espíritos a um livro, a introdução e os capítulos iniciais já estão preenchidos pela história passada de cada qual, não podendo mais ser alterados, muito menos apagados, influenciando por largo tempo a trajetória de cada um.

Em seguida, ainda considerando esta alegoria, há vários capítulos em branco, em que qualquer um deles contempla pelo menos duas previstas fatalidades – o nascimento e a morte – e, no derradeiro, há poucas linhas escritas, descrevendo a fatalidade maior: o nosso destino, a aquisição da perfeição relativa.

Como a maior parte das páginas do nosso livro da vida ainda não foi preenchida, cabe-nos “recheá-las” caprichosamente e com sabedoria, tendo como modelo e guia os inesquecíveis exemplos do incomparável Amigo Celestial.

Rogerio Miguezrogmig55@gmail.com
Revista Reformador  – Abril 2020

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