COMIDA E EGOÍSMO

Comida e Egoísmo

Marcelo Teixeira

Em um artigo escrito anteriormente (“Nem pera, nem uva, nem maçã”), prometi que voltaria a tratar do assunto comida/fome. Eis-me aqui novamente.

Decidi abordar a questão pelo viés do egoísmo porque comida e egoísmo, como diz o título, parecem andar de mãos dadas. Muito do que tenho observado e presenciado, seja nos assuntos mais complexos (fome no mundo, exportação de alimentos, alta de preços de produtos como arroz e leite) como nos mais triviais (“Farinha pouca, meu pirão primeiro”) tem sua origem na mais humana de todas as imperfeições. A mais difícil de ser desenraizada, já que “deriva da influência da matéria, influência de que o homem, ainda muito próximo de sua origem, ainda não pôde libertar-se e para cuja manutenção tudo concorre: suas leis, sua organização social, sua educação” como bem evidencia Allan Kardec na questão 917 de “O Livro dos Espíritos”.

Uma educação voltada para o egoísmo é uma educação em que meus interesses e necessidades vêm primeiro. E quando falo de interesses, enfatizo, englobo tanto fatos que envolvem a economia mundial quanto trivialidades da vida cotidiana. Vou começar por uma escandalosa e terrível questão complexa: a exploração de mão de obra para produção de chocolate.

O site Repórter Brasil, em matéria publicada em 20 de agosto de 2020, denunciou que pelo menos 148 pessoas foram resgatadas, entre 2005 e 2020, de trabalho escravo em fazendas de cacau, boa parte delas na Bahia e no Pará. Além da suprema violação ao direito humano – trabalho escravo –, os agentes do Ministério Público do Trabalho encontraram, no rastro, outras tantas – e igualmente revoltantes – violações: ameaças dos patrões, condições degradantes de moradia e higiene, servidão por dívidas, salários que não chegam à metade do mínimo, falta de acesso à água potável e, infelizmente, trabalho infantil. Tudo isso para favorecer uma cadeia de negócios que envolve fazendeiros, atravessadores, gigantes do agronegócio, além dos fabricantes dos bombons e barras de chocolate que adoramos consumir.

As fronteiras dessa grave realidade se expandem até a África, onde a Costa do Marfim se vale da exploração de mão de obra infantil vinda de um país vizinho e bem empobrecido: Burkina Fasso. “Essas plantações constituem a maior fonte mundial de cacau e servem como cenário a uma epidemia de trabalho infantil que as grandes companhias mundiais de chocolate prometeram erradicar quase 20 anos atrás”, diz reportagem publicada pelo jornal “Folha de São Paulo” em 17 de julho de 2019. Nela, Abou, um menino de 15 anos, declara que foi para a Costa do Marfim há cinco anos para poder ir à escola, mas está pelo mesmo período sem frequentar uma. É o cacau que ele e outros meninos colhem que irá abastecer as grandes marcas europeias de chocolate. Um chocolate que Abou e seus colegas têm muito pouca chance de provar. Até quando essa avidez incessante por lucro e alimentos fará o dito Primeiro Mundo esmagar o Terceiro Mundo? Egoísmo entranhado em nossa viciada organização social, como bem aponta Kardec. Gente sendo explorada, vilipendiada e passando fome para que chocolates sejam consumidos e saboreados tanto na mesa de uma família de classe média como em sofisticadas lojas de países como Bélgica, França e Suíça.

Saio do complexo e entro no trivial, ou seja, no egoísmo na hora de, digamos, encher o próprio prato (ou o próprio bucho). Sou doceiro. Adoro ir para a cozinha preparar bolos e sobremesas variadas. E publico as fotos nas redes sociais, o que costuma causar furor. Alguns amigos do centro espírita do qual faço parte viviam me cobrando levar um bolo para a cantina, que sempre funciona nos dias de reuniões públicas doutrinárias. Um dia, sem avisar, apareci com um bolo de manga numa terça-feira à noite, horário em que também há grupos de estudos. Em três tempos, o bolo acabou. Algumas pessoas compraram um ou mais pedaços para levar para casa, outras consumiram a iguaria ali mesmo. Resultado: dobrei o faturamento da cantina, o que me deixou satisfeito e sem jeito ao mesmo tempo, confesso.

Na terça-feira seguinte, eu não fui ao centro. Quinze dias depois de o bolo de manga ter sido apreciado, mal eu ponho o pé na cantina, ouço do responsável o seguinte: “Marcelo, na semana passada, o povo estava indócil aguardando a tua chegada. Estavam ansiosos para ver se você traria bolo novamente e pedindo para reservar duas, três e até quatro fatias para levarem para casa.” Fiquei mais chateado que lisonjeado. Alguns colaboradores do centro gostaram tanto do bolo que queriam levar para casa boa parte de um provável segundo exemplar. Mas e a pessoa que quer comer apenas um pedaço no balcão da cantina? Como ela ficaria? Comida, para mim, tem muito a ver com partilha e congraçamento. Eu não havia assado um bolo para ser loteado por quatro ou cinco companheiros de ideal, mas para que o máximo possível de pessoas pudesse provar das suas cerca de 20 fatias. Confesso que não liguei mais de levar bolo para a cantina depois desse fato.

Constrangimento semelhante causou um companheiro de centro a quem chamarei de Vitório. Foi planejado um almoço beneficente com o objetivo de angariar fundos para um evento. Eu, Vitório e outros amigos ficamos encarregados da organização. Por força da profissão (sou publicitário, além de jornalista), estou acostumado a captar patrocínio. Por isso, consegui, com as confeitarias locais, cerca de 10 tortas para o buffet de sobremesas. Pouco antes de o centro abrir as portas para o público, Vitório disse o seguinte para a esposa: “Melinda, separa quatro fatias da torta da confeitaria XYZ para levarmos para casa! Vamos aproveitar que aqui, o preço é mais em conta!”

Eu e os demais integrantes da equipe organizadora olhamos para ele, entre atônitos e incomodados. Felizmente, ele percebeu e cancelou a reserva. Não teria o menor cabimento o público chegar e já encontrar uma torta mutilada. Detalhe: Vitório é da alta classe média; mora numa belíssima casa. Tem dinheiro de sobra para comprar uma torta inteira e levá-la para casa. Além disso, as tortas que foram doadas não estavam lá para serem consumidas primeiramente por nós, mas pelos que pagaram para almoçar. Quando chegasse a nossa vez de comer, nos serviríamos do que ainda lá estivesse. Simples assim. Só que o egoísmo sempre dá um jeito de aparecer e tentar estragar a festa confraternativa. Afinal, nossa educação (ou falta de) também concorre para isso, como bem explicita Kardec na já citada questão de “O Livro dos Espíritos”.

Termino esta crônica voltando à produção de chocolate na Costa do Marfim, país que é um dos maiores exportadores de cacau do mundo. Trata-se de uma indústria milionária, que movimenta bilhões por ano e divide o mundo entre glutões e pedintes por um motivo bem lamentável: as pessoas que trabalham nas plantações de cacau daquele país nunca haviam comido chocolate, ou seja, nunca haviam provado do produto que ajudam a fabricar.

Uma emissora de TV da Holanda, ao saber disso, enviou uma equipe de reportagem à Costa do Marfim. E com dezenas de barras de chocolate na bagagem. É tocante ver aquela gente extremamente simples e mal cuidada, morando em casas de taipa, secando sementes de cacau ao sol, provando chocolate pela primeira vez. Dá um misto de tristeza, revolta e vergonha. Aquele povo esquecido pelas benesses da sociedade de consumo nem sabia o nome da iguaria que ajuda a produzir. Alguns, inclusive, acreditavam que a semente do fruto era utilizada na produção de vinho. Uns se espantam com o dulçor, outros, ao provarem, concluem que é por causa do chocolate que os brancos são tão saudáveis. Há barras de chocolate na Costa do Marfim? Há. Só que elas custavam, à época da reportagem, o equivalente a R$ 6,00, e um camponês do cacau recebe por dia o correspondente a R$ 14,00 para sustentar a si e à família. Eis por que o egoísmo secular no qual nossa sociedade está estruturada precisa ser substituído por novas bases justiça, amor, caridade, igualdade e outras tantas sobre as quais lemos tanto, mas nem sempre sabemos como praticar ou sequer lutar por elas de forma racional e objetiva.

P.S.: minha fome de escrever sobre este assunto ainda não se esgotou. Aguarde mais crônicas.

Marcelo Teixeira

Fonte: Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE)

Bibliografia

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