MORRER – Joanna de Ângelis

MORRER

Joanna de Ângelis

CONCEITO

A problemática da morte é decorrência do desequilíbrio biológico e físico-químico essenciais à manutenção da vida.

Fenômeno de transformação, mediante o qual se modificam as estruturas constitutivas dos corpos que sofrem ação de natureza química, física e microbiana determinantes dos processos cadavéricos e abióticos, a morte é o veículo condutor encarregado de transferir a mecânica da vida de uma para outra vibração. No homem representa a libertação dos implementos orgânicos, facultando ao espírito, responsável pela aglutinação das moléculas constitutivas dos órgãos, a livre ação fora da constrição restritiva do seu campo magnético. Morrer, entretanto, não é consumir-se. Da mesma forma que a matéria se desorganiza sob um aspecto para reassociar-se em outras manifestações, o espírito se ausenta de uma condição – a de encarnado -, para retornar à situação primeira da sua existência – despido do corpo material.

A vida carnal é decorrência da existência do princípio espiritual e a vida poderia existir no espírito sem que houvesse aquela.

Morrer ou desencarnar, porém, nem sempre pode ser considerado como libertar-se.

A perda do casulo celular somente liberta o espírito que estruturou o seu comportamento, quando no corpo, sem a dependência enlouquecedora deste.

Os que se imantaram aos vigorosos condicionamentos materiais, utilizando a vestimenta física como veículo apenas para vaso de luxúria ou de egoísmo, qual instrumento de gozo incessante ou do orgulho, na expressão de castelo de força e de paixões, ante a desencarnação prosseguem vinculados aos vapores entorpecentes das emanações cadavéricas em lamentável e demorado estado de perturbação, sitiados pelas visões torpes da destruição dos tecidos, sofrendo a voragem dos vibriões famélicos, enlouquecidos entre as paredes estreitas da paisagem sepulcral.

A vida começa a perecer desde o momento em que se agregam as células para a mecânica do viver.

Vida e morte, pois, são termos da mesma equação do existir.

Não morre aquele que aspira ao amor e sonha com o Ideal da Beleza, entregue ao cultivo da virtude, no exercício da retidão. Não se acaba aquele que se entrega à vida, pois que mediante cíclicas mudanças do tono vibratório o espírito se traslada de corpo a corpo, de estágio a estágio evolutivo até alcançar a plenitude da vida na vitória estuante da Imortalidade. Enquanto os processos abióticos são substituídos por novas atividades bioquímicas, o cadáver passando à fase da desintegração – autólise e putrefação -, o espírito que se educou para os labores de libertação encontra-se indene à participação do desconcertante fenômeno de transformação celular, não ocorrendo o mesmo com aqueles que transformaram o corpo em reduto de prazer ou catre de paixões de qualquer natureza.

DESENVOLVIMENTO

Porque representava a cessação do movimento externo com a consequente degenerescência da forma, a morte mereceu das Civilizações do passado homenagens e tributos consideráveis.

Herdando do homem primitivo o culto de respeito, envolto em mistérios, e complexos rituais com os quais desejavam reverenciar na morte a força disjuntora da vida, essas Civilizações, mediante enganosos conciliábulos através dos quais a personificavam como deidade facilmente subornável, ou mensageira da desgraça que se podia adiar, pensavam consegui-lo por meio desse comércio nefando e irracional.

Milenarmente misteriosa tem prosseguido no seu cortejo, semeando pavor e desconcerto emocional, reinando soberana.

Aplacando-lhe a ira e tentando evitar-lhe a visita inexorável celebraram-se nos diversos fastos do pensamento histórico solenidades soberbas, ora trágicas e deprimentes ou exaltadas a ponto de espicaçar o desinteresse pela vida, produzindo suicídios religiosos, em procissões pagãs, nas quais fanáticos cultivadores de aberrações veneravam seus deuses, atirando-se sob rodas denteadas, abismos profundos, fogueiras destruidoras ante o paroxismo da excitação de mentes primárias em exacerbação dos instintos…

Sob outro aspecto, porque se transformasse no umbral para o acesso ao Desconhecido, foi encarada como misterioso país de cujas fronteiras ninguém voltava, envolvendo-se-lhe o culto em absurdas fantasias.

O homem do período glaciário de Giinz, agindo intuitivamente sob a inspiração dos antepassados, colocava o crânio dos mortos à entrada das cavernas com o objetivo de impedir a incursão naqueles recintos dos inimigos desencarnados…

Os egípcios, conceituando o retorno ao corpo sob a paixão do imediato, transformaram os sepulcros em palácios, colocando tesouros e alimentos para os viandantes do vale das sombras não padeceram necessidades quando da volta…

Mausoléus e jazigos imponentes foram erguidos através dos tempos para perpetuarem a memória e a vida dos extintos, gerando quase sempre longos processos de apego e dor aos transitórios recursos materiais por parte dos que desencarnaram.

A Arte e a Literatura, a Poesia e a Religião contribuíram exorbitantemente para tornarem a morte a megera desventurada, portadora da infelicidade e do horror.

Com o desenvolvimento das conquistas modernas, em cujo período as luzes da fé já bruxuleantes quase se apagaram, a morte, por significar para os apaniguados do niilismo o fim de tudo, passou a constituir móvel de ridículo, senão a aspiração maior dos frívolos e inconsequentes cultivadores da cómoda filosofia do nada. Assim encontrariam a porta para a deserção, logo fossem colhidos pela responsabilidade ou surpreendidos pela dor…

ESPIRITISMO E MORTE

Jesus, indubitavelmente, o Senhor do Mundo e o Herói da Sepultura Vazia, foi o mais nobre pregoeiro da vida com excelente realidade a respeito da morte.

Circunscrevendo todos os seus ensinos em torno da vida, e da Vida abundante, a Sua mensagem é um hino perene à glória do existir, seja num ou noutro setor de atividade em que se manifestam as expressões eternas do espírito: na carne e além dela.

Em todo o Seu ministério de amor e trabalho Sua palavra é luz e vida, considerando mortos somente aqueles que perderam a visão e obstruíram as percepções da realidade espiritual.

Depois dEle coube ao Espiritismo a inapreciável tarefa de interpretar a morte, libertando-a dos infelizes conceitos de vário matiz que foram tecidos multimilenarmente na plenitude da ignorância sobre a sua legítima feição.

Atestando a continuidade da vida após o túmulo, graças ao convívio mantido entre os homens e os Imortais, o Espiritismo libertou a vida do guante da vândala destruidora, exaltando a perenidade do existir em todas as latitudes do Cosmo, na incessante progressão para o Infinito.

Vive, portanto, como se estivesse a cada momento preparando-te para renascer além e após o túmulo.

A vida que se leva é a vida que cada um aqui leva enquanto na indumentária carnal.

Transpassa-se o pórtico de lama e cinza em que se transformam os implementos materiais com as próprias conquistas morais, construindo as asas de anjo com que se pode ascender à Verdade ou as amarras grosseiras para com a retaguarda, mediante as quais se imantam aos engodos fisiológicos.

ESTUDO E MEDITAÇÃO

“Por ser exclusivamente material, o corpo sofre as vicissitudes da matéria.

Depois de funcionar por algum tempo, ele se desorganiza e decompõe. O princípio vital, não mais encontrando elemento para sua atividade, se extingue e o corpo morre. O Espirito, para quem, este, carente de vida, se torna inútil, deixa-o, como se deixa uma casa em ruínas, ou uma roupa imprestável”.

(A Génese, Allan Kardec, cap. XI, item 13)

“A vida espiritual é, com efeito, a verdadeira vida, é a vida normal do Espirito, sendo-lhe transitória e passageira a existência terrestre, espécie de morte, se comparada ao esplendor e à atividade da outra. O corpo não passa de simples vestimenta grosseira que temporariamente cobre o Espírito, verdadeiro grilhão que o prende à gleba terrena, do qual se sente ele feliz em libertar-se. O respeito que aos mortos se consagra não é a matéria que o inspira; é, pela lembrança, o Espírito ausente quem o infunde”. (O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. XXIII item 8)

Joanna de Ângelis

Psicografia de Divaldo Pereiro Franco

Livro: Estudos Espíritas – 7

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