CORPO SOMÁTICO – Joanna de Ângelis

CORPO SOMÁTICO

Joanna de Ângelis

CONCEITO

Genericamente, corpo é toda e qualquer quantidade de matéria, limitada, que impressiona os sentidos físicos, expressando-se em volume, peso…

Aglutinação de moléculas – orgânicas ou inorgânicas – que modelam formas animadas ou não, ao impulso de princípios vitais, anímicos e espirituais. Estágio físico por onde transita o elemento anímico na longa jornada em que colima a perfeição, na qualidade de espírito puro…

O corpo humano, em razão de mutações, transformações, adaptações, condicionamentos filogenéticos e mesológicos, serve de domicílio temporário ao espírito que, através dele, adquire experiências, aprimora aquisições, repara erros, sublima aspirações.

Alto empréstimo divino, é o instrumento da evolução espiritual na Terra, cujas condições próprias para as suas necessidades fazem que a pouco e pouco abandone as construções grosseiras e se sutilize, conseguindo plasmar futuros contornos e funções futuras, mediante o comportamento a que vai se submetendo no suceder dos tempos.

Por enquanto, serve também de laboratório de experiências pelas quais os Construtores da Vida, há milénios, vêm desenvolvendo possibilidades superiores para culminarem em conjunto ainda mais aprimorado e sadio.

Formado por trilhões e trilhões de células de variada constituição, apresenta-se como o mais fantástico equipamento de que o homem tem notícia, graças à perfeição dos seus múltiplos órgãos e engrenagens, alguns dos quais, auto-suficientes, como o aparelho circulatório, que elabora até mesmo o de que se faz preciso para o seu funcionamento e produtividade.

Atendido por notáveis complexos elétricos e eletrônicos, é capaz de se auto-reparar, dispondo dos mais perfeitos arquivos de microfotografia, nos centros da memória, que, se pudessem ser equiparados a uma construção com as atuais técnicas de miniaturização com que se elaboram os computadores, esses departamentos mnemónicos ocupariam uma área de aproximadamente 160.000 quilómetros cúbicos, tão-somente para os bilhões de informações de uma única reencarnação… Ele pode, no entanto, mediante o perispírito que lhe vitaliza muitas evocações, reter e traduzir programações referentes a incontáveis jornadas pretéritas do Espírito em ascensão para Deus.

Aparelhado para as diversas atividades que se lhe fazem mister, dispõe do quanto lhe é imprescindível para as transformações e renovações que o mantêm com equipagem em funcionamento harmônico.

Qualquer ultraje que sofra se lhe imprime por processos muito sutis, incorporando-o aos tecidos constitutivos da sua eficiência em gravames e ofensas que o transtornam, como cobrador honesto junto ao condutor leviano que o dirige em regime inadiável de urgência…

A sua valorização através das aspirações nobres vitaliza-o e equilibra-o com imperceptíveis melhoramentos que o mantêm e sustentam.

No conjunto endocrínico, por exemplo, sincroniza os mais perfeitos sistemas de elaboração de hormônios de que se tem conhecimento.

O cérebro – ainda por desbravar – só paulatinamente vai sendo utilizado, dispondo de áreas ainda não acionadas, que são reservas formidandas para o futuro do homem…

Preciosas redes de capilares, microscópicos, colocados nas junções das artérias e das veias são deslumbrantes implementos de integração perfeita, realizando a sustentação das células, ajudando a eliminação dos tóxicos e sustentando os diversos departamentos vitais com o oxigénio salutar. Não obstante a sua insignificância aparente, são peças porosas que facultam ao oxigénio penetrá-los num sentido, enquanto por outro eliminam os produtos colaterais nitrogenados do metabolismo proteínico, culminando pelo preciosismo com que deixa passar uma substância aquosa que renova o banho líquido de que se nutrem as células, graças ao qual sobrevivem e se multiplicam…

Os departamentos dos sentidos, em câmaras excepcionais, recebem, traduzem e respondem todas as mensagens que lhes chegam, com a velocidade do pensamento, catalogando e descrevendo informações novas com que enriquece o patrimônio das suas aquisições. Mesmo quando, conscientemente, a memória não procede aos registros ou os sentidos parecem não os captar, a maquinaria sublime os anota e transfere para o subconsciente, que os armazena em depósitos especiais, dotados da capacidade de trazê-los de volta, oportunamente, ao celeiro da consciência atual sob estímulos próprios… Preservá-lo é mais do que dever – significa elevado compromisso de que ninguém se liberará levianamente ante a própria e a Consciência Cósmica, que tudo rege e conduz com suprema sabedoria e perfeição.

HISTÓRICO

Modernos biólogos e geneticistas fascinados com as conquistas do engenho atual, diante do corpo, sugerem, precipitados uns, levianos outros, alterações singulares e sonham com as possibilidades de poderem intervir, a golpe de audácia, na sua estrutura, interferindo no processo genético, por meios artificiais, em busca de resultados surpreendentes… Interpretando erradamente o conceito do Cristo de que somos deuses, pretende o homem, que crê, brincar de divindade, ele que, brincando, fomenta a guerra, a destruição, o egoísmo, por ainda não saber, sequer, brincar como homem. Os não crentes se refugiam na negação e propõem aventuras.

Difícil uma análise histórica, em síntese sobre o homem, um exame da sua organização somática pelos milénios incontáveis, desde as formas primárias em que a vida se manifestou no Orbe quando os “fascículos de luz” da Divindade começaram a adensar-se nas manifestações iniciais da matéria viva…

O naturalista honesto, no entanto, fixado à complexa documentação paleontológica, embriológica, como a da Anatomia Comparada, apresenta o lémure como o mais velho espécime conhecido, dentre os símios, do qual surgiu o platirrino, e, posteriormente, o catarrino que, em se bifurcando, deu origem ao antropopiteco, o erectus, que serviu de tronco ao ramo de que nasce o homem.

Antes, porém, distintas raças serviram de moldes ascendentes para a formação paulatina da organização do Homo sapiens. Foram elas as de Grimaldi (demonstrada através de dois esqueletos negróides, que foram descobertos na Riviera Italiana, próximo a Grimaldi); as do Cro-Magnon (quando encontraram os ossos de quatro homens, dolicocéfalos, com expressiva estatura, que teriam habitado grande parte da Europa. Esse achado ocorreu no ano de 1868, na Dordonha, próximo a Eyzies, na França); e as de Chancelade (consideradas como do período Magdaleniano, que teria dado origem aos esquimós).

Não obstante os antropólogos divergirem entre si, apresentando novos grupos e subgrupos em que sustentam as teorias esposadas, são aquelas as melhormente aceitas pela generalidade dos estudiosos do assunto.

Em 1950 Mayr sugeriu uma nova classificação para os hominídeos fósseis, simplificando, assim, as anteriores num único Homo, que se distribuiu em 3 classes: transvaalensis, erectus e sapiens, facultando novas pesquisas e valiosas anotações corroboradoras.

De Lineu, a Cuvier, a Blumenbach, as classificações se estereotiparam, cabendo ao sábio de Gõttingen, baseado na Antropologia Física, poder oferecer maior contribuição ao pensamento moderno, especialmente através dos estudos craniológicos, a que empregou seus melhores esforços…

Simultaneamente, desde os primórdios do pensamento filosófico, o problema da evolução mereceu as mais expressivas contribuições. Com Heráclito, firmou-se o conceito dialético do Mundo, inspirado na filosofia grega, que tudo reduzia a incessantes transformações, mediante as quais as espécies vivas eram mutáveis. Lucrécio, ao apresentar o seu De Natura Rerum descreveu poeticamente a Natureza e se tornou o precursor legítimo do Darwinismo, por meio da “seleção natural” e da “luta pela vida”. Mais tarde, Buffon afirmou os princípios evolucionistas em oposição ao fiocismo criacionista, facultando a Lamarck estabelecer a teoria dos seres vivos, donde se originou o Transformismo. Darwin, porém, culminou as pesquisas, já iniciadas, tornando-se o grande sistematizador e legítimo expositor da “concepção transformista da Natureza”.

Hegel, simultaneamente, estabeleceu uma dialética concorde com tais princípios, em bases idealistas, cabendo a Spencer uma visão mais ampla da evolução, que definiu como sendo “Uma integração da matéria e uma dissipação concomitante do movimento, durante a qual a matéria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente a uma heterogeneidade definida e coerente, sofrendo, ao mesmo tempo, o movimento mantido e uma transformação paralela”.

O pensamento hegeliano sustentou a teoria do materialismo dialético, então vigente. Logo depois, a teoria mutacionista propôs conceitos por meio dos quais as mutações, que seriam rápidas transformações, se fariam transmitir por hereditariedade, nunca, porém, provocadas pela ação mesológica, assim podendo facilitar, promover ou impedir as mesmas mutações, fazendo surgir, então, novos caracteres e ensejando a “seleção natural” darwiniana, na qual alguns caracteres sobreviveriam, enquanto outros desapareceriam. Os favoráveis à sobrevivência da espécie seriam, então, mantidos pela hereditariedade…

Indubitavelmente que os conceitos evolucionistas não podem hoje ser negados, graças à monumental comprovação da Ciência atual, nos vários campos em que se expressa.

Merece examinar, porém, que ao princípio espiritual, nas sucessivas reencarnações, se deve a transmissão às formas mais grosseiras, das necessidades psíquicas, que impõem o surgimento de órgãos e caracteres novos a se transmitirem por hereditariedade e se fixarem, prosseguindo o processus evolutivo incessantemente.

A princípio, o Espírito se encontrava em atrasada expressão, utilizando-se da forma símio em transição para fixar-lhe implementos novos, desde que a função precede o órgão e aquela procede do Espírito, que modela as formas próprias, de que precisa para crescer e produzir experiências não conhecidas.

À medida que as formas se aprimoravam, Espíritos mais bem credenciados impuseram-lhe atributos outros que constituíram, através dos milénios múltiplos e sucessivos, o corpo que hoje ainda serve de temporária morada para as edificações das futuras formas, com que a Humanidade progredirá no porvir, sob condições mais felizes, seguras e harmônicas.

Ao Espírito, que é o ser, se devem as exteriorizações somáticas que constituem o não ser.

CONCLUSÃO

Vasilhame sublime, é o corpo humano o depositário das esperanças e o veículo de bênçãos, que não pode ser desconsiderado levianamente.

Seja cárcere sombrio – na limitação em que retém o Espírito déspota, que dele se vale para a expiação; seja conjunto harmónico de formas – na distinção de traços com que faculta o aproveitamento das oportunidades; seja grabato de meditação – nas constrições paralíticas em que impõe profundas reflexões morais; seja cela de alucinação – nos desvarios da mente ultrajada; seja celeiro de sabedoria – no qual se edificam os monumentos da Cultura, da Arte, do Pensamento, da Ciência, da Fé, do Amor -, é sempre o santuário de recolhimento que o Excelso Criador nos concede, a fim de galgarmos os degraus da escada ascensional, desde as baixadas primeiras aos esplendores espirituais que nos estão destinados. Amá-lo, preservá-lo e utilizá-lo com nobreza é a tarefa que nos cabe desempenhar incessantemente, sem cansaço, para o próprio bem.

ESTUDO E MEDITAÇÃO

“O homem surgiu em muitos pontos do globo?”

“Sim e em épocas várias, o que também constitui uma das causas da diversidade das raças. Depois, dispersando-se os homens por climas diversos e aliando-se os de uma aos de outras raças, novos tipos se formaram”

  1. a) Estas diferenças constituem espécies distintas?

“Certamente que não; todos são da mesma família. Porventura as múltiplas variedades de um mesmo fruto são motivo para que elas deixem de formar uma só espécie?”.

(O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 53).

“Admitida essa hipótese, pode dizer-se que, sob a influência e por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório se modificou, embelezou-se nas particularidades, conservando a forma geral do conjunto. Melhorados, os corpos, pela procriação, se reproduziram nas mesmas condições, como sucede com as árvores de enxerto. Deram origem a uma espécie nova, que pouco a pouco se afastou do tipo primitivo, à proporção que o Espírito progrediu. O Espírito macaco, que não foi aniquilado, continuou a procriar, para seu uso, corpos de macaco, do mesmo modo que o fruto da árvore silvestre reproduz árvores dessa espécie, e o Espírito humano procriou corpos de homem, variantes do primeiro molde em que ele se meteu. O tronco se bifurcou: produziu um ramo, que por sua vez se tornou tronco”.

(A Génese, Allan Kardec, cap. XI, item 16.).

Joanna de Ângelis

Médium: Divaldo P. Franco

Livro: Estudos Espíritas – 5

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