O envolvimento dos jovens na casa espírita

Por Eliana Haddad

Pai de seis filhos, Walteno Silva mora há 12 anos em São Paulo, onde participa como secretário geral da USE Estadual. Mas o seu vínculo com o espiritismo e com a juventude espírita teve início no Rio de Janeiro, onde nasceu. Desde então, ele manteve os laços com as mocidades espíritas, através das confraternizações realizadas no Estado, e também com as atividades de evangelização. Infância e juventude espírita é tema que palpita na vida em família de Walteno Silva, incluindo todos os desafios da atualidade. É o que ele nos conta nesta entrevista.

Como você analisa a participação dos jovens no espiritismo?

Os jovens são cativantes. Quando vemos a inteligência da argumentação deles, o sentimento de amorosidade que eles oferecem, é algo que mexe com nossos sentimentos mais profundos, dando-nos esperança de que o mundo vai mudar.

Entretanto, nós temos percebido que existe um distanciamento do jovem da casa espírita. Os hábitos sociais mudaram muito nos últimos anos. Alguma coisa na concentração mental e no interesse das pessoas pelas leituras e pelos estudos modificou substancialmente. Com isso, as casas espíritas enfrentam muita dificuldade em estabelecer grupos de jovens para o estudo da doutrina espírita.

Acha que eles são desinteressados pela religiosidade?

Considerando o plano divino para a regeneração da Terra, considerando os milhares de espíritos pertencentes à nova geração que reencarnam todos os anos, entendemos que temos muitos jovens interessados pela religiosidade; do contrário, onde estariam os ciclos de transformação que são previstos no livro A gênese de Allan Kardec?

O que acontece é que essa nova geração precisa ser despertada para os objetivos superiores de suas vidas. E se não temos uma estrutura que os receba e os relembre desses compromissos, podem seguir a rota da ilusão da matéria que a experiência da carne oferece naturalmente. E seguindo essa rota, podem, sim, ser contaminados pelas filosofias materialistas, em especial nos bancos escolares e nas universidades, instituições que permanecem ainda hoje com uma influência fortíssima dos pensamentos de dúvida e de negação de Deus.

A que você atribui a prevalência de pessoas com mais idade nas casas espíritas? Compreender o espiritismo pode ser uma questão de maturidade?

No meu entendimento, o primeiro fator seria a falta de um processo inclusivo para as novas gerações. É como um lapso de atenção dos dirigentes e trabalhadores das instituições para com elas, e eu me incluo nessa falta. Sem julgamento a quem quer que seja, e com muita consideração pelos que se dedicam e trabalham muito para oferecer um núcleo de oração na comunidade onde residem. Mas essa nossa desatenção pode nos custar a continuidade da obra a que nos dedicamos com tanto carinho. Podemos ver os centros envelhecerem e morrerem pelo problema da sucessão.

Um segundo fator seria a falta de uma abordagem dinâmica no estudo da doutrina, não especificamente na forma divertida ou animada de se trabalhar com jovens, mas nas propostas que desafiem a inteligência e provoquem o interesse deles pelos dilemas atuais que o espiritismo pode solucionar.

É comum ouvir que os dirigentes espíritas não acreditam no trabalho dos mais novos, delegando a eles tarefas simples, que não comprometam o andamento da casa. O que você acha disso?

É comum não cuidarmos do jovem com a atenção que deveríamos. Não é apenas uma questão de delegar tarefas mais complexas, mas, antes de tudo, estar ao lado dele mostrando como se faz, observando o seu desenvolvimento e apoiando-o a superar cada novo desafio.

Somos a favor de preparar os jovens para assumirem um papel ativo dentro do movimento espírita. Mas para fazer isso temos que ter tempo nosso disponível para mostrar os primeiros passos e caminhar junto. Às vezes, é mais conveniente para o adulto entregar a chave do centro e dizer que ele agora é o protagonista. Mas será que os trabalhos espirituais devem ser tratados dessa forma?

E o resultado disso é um isolamento maior ainda, pois então são criados núcleos de mocidades totalmente apartados do centro espírita, com uma cultura muito particular que depois torna-se inviável uma tentativa de harmonização com outras áreas do centro.

Quais os maiores benefícios que o espiritismo pode proporcionar à juventude?

O primeiro é trazê-los para a vida verdadeira. Já pudemos ouvir de alguns jovens como foi importante conhecer o espiritismo da maneira profunda e espiritualizada como havíamos estudado. É como um renascer na mesma vida. Tudo muda, todas as aspirações da vida mudam de foco. E considerando o clima de ansiedade e se espalha em toda parte, entendemos que um dos grandes benefícios que o espiritismo pode trazer para os jovens é uma segurança íntima e fé tão robusta, que lhes permita facear as provações da vida com mais serenidade e paz no coração.

Seria algum fator de negligência nossa na formação dessas crianças e jovens dentro do lar espírita?

Entendo que num futuro nós teremos muito mais habilidade em conduzir os nossos filhos para o espiritismo. É algo intrigante ver que muitos trabalhadores dedicados não tiveram a alegria de ver seus filhos acompanharem os mesmos passos. Não é uma tarefa simples. É verdade que nem todos os espíritos que recebemos no lar terão afinidade pelos temas de espiritualidade. Mas será que não existem mecanismos educativos que ajudariam nesse mister?

Levando em consideração sua experiência no contato com os jovens espíritas, já chegou a alguma conclusão sobre o que pode ser feito, no sentido de reverter esse quadro?

De tudo que fizemos nesse campo de trabalho com a juventude, o que trazemos na bagagem de mais relevante é a necessidade de trabalharmos o despertamento. É claro que ninguém conscientiza ninguém, as próprias pessoas que se descobrem e que se despertam. Mas nós podemos trazer bons estímulos. É como acender uma brasa que está lá no coração de cada um. Dentro da programação dos nossos estudos, havia sempre uma priorização em reflexões sobre os objetivos superiores da nossa existência e os compromissos assumidos ainda no plano espiritual. Em resumo, os estudos espíritas tendo como pano de fundo muitos estímulos para o autoconhecimento e a transformação moral, além de relembrar esse preparo que tivemos no plano espiritual para a nossa vida atual. Não esquecendo, obviamente, de adaptar os estudos com uma linguagem adequada e uma abordagem dinâmica, de forma a tirar os jovens de uma posição passiva, chamando-os para interagir, discutir e dar sua contribuição, que é sempre muito valiosa.

Você está envolvido com projetos que mobilizam jovens, como o “Mocidade itinerante” e o “Revista Espírita ilustrada”. Que trabalhos são esses?

Na verdade, faço parte de equipes específicas para cada um desses projetos, e tenho a felicidade de realizar tudo isso em companhia da minha esposa, Mônica, com quem temos compartilhado todas essas experiências com a juventude.

O primeiro projeto da “Revista Espírita ilustrada”, é publicado na revista Dirigente Espírita, da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Foi interessante descobrir talentos valiosos nos jovens que formaram essa equipe. Uns fazem os desenhos e ilustrações e outros preparam e adaptam histórias de espíritos, selecionadas da Revista Espírita, para o público infantojuvenil. O resultado superou nossas expectativas, tendo em vista ser uma iniciativa nova para todos nós e pelo fato de contarmos com a mão de obra bem jovem.

O segundo projeto, “Mocidade itinerante”, está em fase de preparação. É uma iniciativa da USE Regional do Grande ABC, onde a Mônica está como presidente, e tem a finalidade de fomentar a criação de novos grupos de mocidades em casas que ainda não a possuem. Estamos convocando jovens, filhos de trabalhadores, ou conhecidos dos centros espíritas da região do Grande ABC, para através de encontros de capacitação se prepararem para serem os multiplicadores. É como criar um canteiro de mudas para plantar depois.

Tivemos contato com casas em São Bernardo do Campo, SP, que dez anos atrás se ressentiam pelo fato de não terem um grupo de jovens, realidade que ainda não mudou. Quem sabe essa não é uma nova forma de conceber uma mocidade espírita?

Como estão esses movimentos com jovens espíritas fora do Brasil?

Em 2021, fomos convidados a participar da coordenação de um trabalho chamado Juventude Espírita Internacional Sembradores de Luz e deu para ter uma noção. É um projeto com uma proposta superinteressante, que possibilita o compartilhamento de experiências e aprendizados entre jovens espíritas de diferentes países e consequentemente de vários idiomas. Utilizando tecnologia bem apropriada, conseguimos realizar encontros com tradução simultânea em espanhol, português, inglês e francês. O que nos chamou muito a atenção é o nível de profundidade das reflexões desses jovens. Vemos nesse tipo de iniciativa o início de um movimento que deve se espalhar com muita energia. Participar dele é como encher a alma de esperança na proposta do espiritismo para a transformação da Terra num mundo melhor.

Como os espíritas devem se preparar para receber essa nova geração, com suas peculiaridades e demandas? Qual seria a prioridade?

Precisamos entender mais o mundo jovem, entender suas necessidades, seus conflitos. Estudar essa fase juvenil, os desafios psicológicos dessa faixa etária. Estudar como eles constroem a sua identidade, quais os movimentos sociais que estão fazendo convites para eles. Devemos nos preparar mesmo. Apoiá-los com muito respeito e sem autoritarismo, observá-los com um olhar e uma escuta sensíveis.

A prioridade é o acolhimento do jovem. O grupo espírita deveria ser um porto seguro para ele, onde seus anseios e medos podem ter uma solução. E mostrar que com o auxílio do espiritismo ele terá mais liberdade e discernimento para fazer suas escolhas na vida.

Extraído de correio.news/entrevista

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Prece: Uma Conexão com Deus

Ana Paula Januário

“A forma nada vale, o pensamento é tudo. Ore, pois, cada um segundo suas convicções e da maneira que mais o toque. Um bom pensamento vale mais do que grande número de palavras com as quais nada tenha o coração.”

(Allan Kardec – ESE-Cap. XXVIII)

Como consta no livro “A Prece Segundo o Espiritismo” por Allan Kardec:

“A prece é uma invocação: por ela nos pomos em relação mental com o ser a que nos dirigimos. Ela pode ter por objeto um pedido, um agradecimento ou um louvor. Podemos orar por nós mesmos ou pelos outros, pelos vivos ou pelos mortos. As preces dirigidas a Deus são ouvidas pelos Espíritos encarregados da execução dos seus desígnios; as que são dirigidas aos Bons Espíritos vão também para Deus. Quando oramos para outros seres, e não para Deus, aqueles nos servem apenas de intermediários, de intercessores, porque nada pode ser feito sem a vontade de Deus”.

O objetivo da prece é elevar nossa alma a Deus como consta no Evangelho Segundo o Espiritismo, seja por meio de palavras ou do pensamento, realizada tanto em particular como em público. A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com ele (KARDEC, 2008, questão 659).

Tendo em mente essas informações, a prece é sempre uma projeção do pensamento que estabelece uma corrente fluídica que depende do seu teor vibratório, ou seja, depende da vibração de quem ora. Acaba sendo refúgio, a calma, o reconforto para muitas pessoas aflitas, de corações magoados. Quem nunca fez uma oração direcionada a Deus, ou a Jesus, o Cristo, ou, ainda, para nosso Espírito Protetor, nosso Anjo da Guarda? Nesses momentos sabemos que podemos contar com eles, sabemos que estamos sendo ouvidos e no momento certo no santuário da consciência, uma voz secreta responde: É a voz dAquele donde dimana toda a força para as lutas deste mundo, todo o bálsamo para as nossas feridas, toda a luz para as nossas incertezas. E essa voz consola, reanima, persuade; traz-nos a coragem, a submissão, a resignação estóicas. E, então, erguemo-nos menos tristes, menos atormentados; um raio de sol divino luziu em nossa alma, fez despontar nela a esperança (DENIS, 2005).

Devemos lembrar que sempre podemos ter esse momento íntimo com Deus, dirigir a palavra e adquirir a tranquilidade para aquele momento, seja em casa, na rua ou dentro de um centro espírita. Não importa o local na qual se encontre, a prece faz com o ser entre em comunhão com Deus a fim de receber seu auxílio e proteção.

Em consequência disso, vale lembrar que não necessitamos utilizar palavras pomposas, ser formal para realizar uma prece. Como consta na coletânea de preces espíritas do Evangelho Segundo o Espiritismo no capítulo XXVII:

“A principal qualidade da prece é ser clara, simples e concisa, sem fraseologia inútil, nem luxo de epítetos que não são enfeites de brilho falso. Cada palavra deve ter a sua importância, revelar uma ideia, movimentar uma fibra: uma palavra, deve fazer refletir; só com essa condição, a prece pode alcançar o seu objetivo, de outro modo, não é senão ruído. Vede também com que ar de distração e volubilidade elas são ditas na maioria das vezes; veem-se lábios que se movimentam, mas, pela expressão da fisionomia e mesmo o som da voz, reconhece-se um ato maquinal, puramente exterior, ao qual a alma permanece indiferente”.

Em consequência disso, a prece também não deve ser uma ação engessada, repetir palavras, fórmulas determinadas, um movimento mecânico de lábios. A prece é vibração, energia, poder. A criatura que ora, mobilizando as próprias forças, realiza trabalhos de inexprimível significação. Semelhante estado psíquico descortina forças ignoradas, revela a nossa origem divina e coloca-nos em contato com as fontes superiores. Dentro dessa realização, o Espírito, em qualquer forma, pode emitir raios de espantoso poder (XAVIER, 2004).

Como sempre falamos, Deus que é justo e misericordioso, nunca deixa uma prece sem resposta. Devemos ter em mente que uma oração, filha do amor, não é apenas uma súplica, é comunhão entre o Criador e a criatura, constituindo, assim, o mais poderoso influxo magnético que conhecemos (XAVIER, 2004). Portanto, manter um hábito constante e diário para realizar uma prece a Deus e nossos amigos espirituais, é de suma importância para saúde, principalmente mental. Além de atrair o auxílio de espíritos benfeitores que vem nos sustentar e inspirar-nos bons pensamentos, sejam eles através da intuição ou da inspiração.

Quando oramos temos a capacidade de emitir vibrações mentais que acabam se espalhando pelo ambiente por meio das correntes do pensamento e emitindo o bem para nossos semelhantes.

Dessa forma, que a cada dia possamos colocar em prática essa ação, possamos entrar em contato com Deus e perceber a eficácia, efeitos e resultados obtidos, como citar Chico Xavier no livro Missionários da luz pelo espírito André Luiz:

“Os […] raios divinos, expedidos pela oração santificadora, convertem-se em fatores

adiantados de cooperação eficiente e definitiva na cura do corpo, na renovação da

alma e iluminação da consciência. Toda prece elevada é manancial de magnetismo

criador e vivificante e toda criatura que cultiva a oração, com o devido equilíbrio do

sentimento, transforma-se, gradativamente, em foco irradiante de energias da Divindade”.

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS:

Centro Espírita Nosso Lar: O poder da Prece, 2019. Disponível em:  https://nossolarfraiburgo.com.br/o-poder-da-prece-2/ Acesso em 30 nov. 2021.

DENIS, Léon. Depois da morte. Tradução de João Lourenço de Souza. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Quinta parte, cap. 51 (A Prece), p. 295.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 177. ed. São Paulo: Ide, 2008. 214 p.

KARDEC, Allan. A prece segundo o espiritismo. 1. ed. Rio de Janeiro: CELD, 2016.

XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da luz. Pelo Espírito André Luiz. 38. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Cap. 6 (A oração), p. 83 e 84

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Apuros de um morto

Quando Apolinário Rezende acordou, além da morte, viu-se terrivelmente sacudido por estranha emoção. Ouvia a esposa, Dona Francina, a chamá-lo em gritos estertorosos. E qual se fosse transportado a casa por guindaste magnético, reconheceu-se, de chofre, diante dela, que se descabelava chorosa.

– “Ingrato! Ingrato!” – era o que a viúva dizia em pensamento, embora apenas tartamudeasse interjeições lamentosas com a boca.

Julgando no corpo de carne, Rezende, em vão, se fazia sentir. Gritava pela companheira. Pedia explicações. Esmurrava a mesa em que a senhora apoiava os cotovelos. Dona Francina, entretanto, procedia como quem lhe ignorava a presença.

O infeliz, no primeiro instante, julgou-se dementado. Acreditava em pesadelo e queria retornar à vida comum, despertar… Beliscava-se inutilmente.

Nisso, escutou o próprio nome no andar térreo. Despencou-se e encontrou Maria Iza, a copeira que se habituara a estimar como sendo sua própria filha, em conversação discreta com o advogado que lhe era amigo íntimo.

O Dr. Joaquim Curado ouvia, atento a moça, que lhe confidenciava uma infâmia. A empregada, que sempre lhe recolhera a melhor atenção, não se pejava de acusá-lo, afirmando que o pequeno Samuel, o menino que lhe nascera, quatro anos antes, do coração de mãe solteira, era filho dele, Rezende.

A serviçal, no extremo da calúnia, dramatizava em pranto. Dizia, despudorada, que seu filhinho Samuel não podia privar-se da herança, que ela, em outros tempos, vivia sofrendo injuriosas cenas de ciúme, por parte da patroa, e que estava agora resolvida a colocar a questão em pratos limpos.

Apolinário cerrou os punhos e dispunha-se a esbofeteá-la, quando o causídico asseverou: “Bem, desde que o Rezende morreu…”

O pobre Espírito liberto sofreu tremendo choque.

Morrera então? Que significava tudo aquilo?

Sentia-se louco… Gritou desesperado, lembrando fera aguilhoada no circo, mas os dois interlocutores nem de leve lhe perceberam a reação, e o entendimento continuou…

Chorando copiosamente, Apolinário ficou sabendo que o inventário dos seus bens seguia em meio, que Maria Iza alegava-se seduzida por ele e exigia mais de dois milhões de cruzeiros, parte igual ao montante que se reservava a cada um de seus filhos.

O Dr. Joaquim falava em exame de sangue e pedia provas. A moça notificou que Renato, o filho caçula de Dona Francina, fora testemunha da experiência infeliz a que se submetera, em acedendo às tentações que lhe haviam sido movidas pelo morto.

Aterrado, Rezende viu seu próprio filho mais novo entrar, a chamado, no parlatório doméstico, apoiando a invencionice. O jovem, que ultrapassara os vinte e dois de idade, preocupava-o sempre, pelo caráter leviano; contudo, não foi sem espanto que passou a escutá-lo, confirmando a denúncia.

Perante o advogado, surpreendido, Renato anunciou que, simplesmente tocado pela compaixão, deliberara ajudar Maria Iza, declarando que o pai, pilhado por ele em vários encontros com ela, resolvera confiar-lhe a verdade, salientando que, um dia, quando viesse a falecer, o menino Samuel não devia ser esquecido, de vez que lhe devia a paternidade.

Rezende, tomado de repugnância, desmentia tudo, até que lhe pareceu ouvir os pensamentos do filho, compreendendo, por fim, que Renato se mancomunara com a copeira, de modo a senhorear metade da importância que a ela fosse atribuída pela Justiça.

Entendeu a chantagem. O rapaz pretendia o maior quinhão e, para isso, não vacilava enxovalhar-lhe o nome. Abatido, procurou Reinaldo, o filho mais velho, moço de comportamento exemplar; entretanto, foi achá-lo no gabinete, conformado com a situação. O irmão desfechara habilmente o golpe e o primogênito preferia perder parte da herança a desrespeitar a memória do pai.

Voltou Rezende ao quarto da esposa e debalde quis confortá-la. Dona Francina ensopara o lenço de lágrimas. Não chorava tanto o dinheiro de que deveria dispor. Lastimava a suposta infidelidade do falecido marido. Recordava todos os dias felizes, em que ambos haviam desfrutado confiança perfeita… Era preciso ser desumano para que lhe mentisse, qual o fizera, dentro do próprio lar. Ansiava conservá-lo puro, na lembrança, viver o resto da existência preparando-se para reencontrá-lo; entretanto…

Esforçava-se Rezende para consolá-la, a procurar em si mesmo a razão por que sofria semelhante prova, quando lhe ocorreu um estalo na consciência.

Via-se recuar, recuar… Sim, sim, Maria Iza recebera dele tão somente considerações respeitosas; contudo, Julieta surgia-lhe agora… Fora-lhe a companheira da juventude, quarenta anos antes… Menina de condição modesta aguentara-lhe a ingratidão. Cedera aos seus caprichos de moço impulsivo e passara a aguardar-lhe um filhinho, confiando no casamento. Examinando, porém, as próprias conveniências, obrigara Julieta a sujeitar-se a vergonhoso processo abortivo e, em seguida, ao vê-la frustrada, abandonou-a na vala do meretrício.

Rezende, atormentado em dolorosas reminiscências, inquiria a si próprio se a calúnia de Maria Iza seria a resposta do destino ao sarcasmo em que lançara Julieta… Onde encontrar a vítima de outra época? Por outro lado, ali estava Dona Francina, a reclamar-lhe assistência, e Maria Iza, a quem devia perdoar a seu turno.

Tateava o crânio em fogo.

Atravessava o primeiro dia de consciência acordada, depois da morte, e parecia estar no ínfero mental, desde muito tempo.

Caiu a noite e Rezende permaneceu aflito junto da esposa, tentando, em vão, falar-lhe durante o sono… Manhã cedo, Dona Francina levantou-se, orou à frente da própria imagem dele, na foto de cabeceira, tomou grande ramo de flores e saiu na direção de um templo. Apolinário seguiu-a, reconhecendo, emocionado, que a esposa encomendara um ofício religioso, a benefício da sua felicidade. Findas as preces, Dona Francina tocou para o cemitério.

Só então Rezende veio saber que a leal companheira comemorava o sexto mês de sua partida.

Cento e oitenta e três dias de inconsciência na vida espiritual!

Assombrado, fitou a esposa, que se ajoelhara à frente do seu próprio túmulo. Entre angustiado e curioso, inclinou-se para a lápide e soletrou espantadiço: “Aqui jaz Apolinário Rezende.” E, em letras menores: “Orai pelo descanso eterno de sua alma”.

Quando leu as palavras “descanso eterno”, Rezende passou a refletir sobre as agonias morais a que era submetido, desde a véspera, e, embora sentindo imenso desejo de chorar, esqueceu a quietude do campo santo e desferiu, em desespero, enorme gargalhada…

Extraído do livro Contos desta e doutra vida, obra psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.

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Dos desvios e distorções doutrinárias

Orson Peter Carrara

Há que se dedicar muito cuidado e atenção na prática cotidiana da programação de nossas instituições espíritas. O compromisso do adepto espírita é com o Espiritismo. E Espiritismo está claramente definido nas obras básicas de Allan Kardec. As inclusões indevidas, práticas que distorcem, inovações oriundas de nossas distrações doutrinárias e mesmo quando criamos o “nosso espiritismo”, correm por nossa conta e risco, gerando responsabilidades de expressão, face às noções indevidas que podemos estar semeando em pessoas que agora se aproximam da Doutrina Espírita e o conhecem distorcido de suas propostas verdadeiras.

O compromisso do Espiritismo é com a renovação moral do ser humano. Totalmente conectado com o Evangelho de Jesus, suas bases visam esclarecer e orientar sobre nossa natureza, origem e destinação como filhos de Deus. Fundamentado em bases racionais e exclusivamente voltado ao crescimento intelecto moral dos filhos de Deus, o Espiritismo dispensa condicionamentos, dependências de qualquer espécie, imposições, exigências e fanatismos que possam ou queiram se impor.

Quando se fala em condicionamentos e dependências, há um leque enorme de situações sutis que vamos nos permitindo e que deformam totalmente a genuína prática espírita. Alguém poderia perguntar: mas qual ou quais? Relacione uma ou mais. Não há necessidade de citar, discriminar ou criar outros perigosos caminhos que são os do preconceito ou do orgulho ferido e mesmo possíveis imposições ou críticas que não cabem.

A resposta é fácil. O Espiritismo possui e oferece ferramentas úteis e precisas para se evitar condicionamentos e dependências. Basta que perguntemos a nós mesmos: o que espero ou faço do Espiritismo? Como dirigente, palestrante, escritor ou colaborador/tarefeiro em qualquer área de atividade nas instituições – pois que não há qualquer atividade que seja mais importante ou mereça qualquer destaque, já que somos todos meros aprendizes –, como estou me portando?

Aprisiono ou liberto e motivo as pessoas? Uso ameaças, chantagem e imponho minhas ideias e vontades como as únicas corretas? Sou daqueles que recriminam e acusam, desprezam ou não desmerecem o esforço alheio? Não é preciso continuar. Muitas outras situações podem ser incluídas.

Com tais posturas, onde vão se incluir os desdobramentos próprios do orgulho, da vontade de dominar, da vaidade e da prepotência, geram os problemas que aí estão, esperando nossa submissão à realidade do que realmente somos: todos meros aprendizes.

O pior de tudo isso é que deixamos que nossas tendências introduzam práticas estranhas ao Espiritismo na prática cotidiana dos Centros, como as atuais novidades incoerentes com a genuína prática espírita. Quais são as novidades? Novamente não é nem preciso citar. Basta observar com atenção! Os desvios surgem e as novidades aparecem quando esquecemos a prioridade do Espiritismo: nossa melhora e progresso moral.

E a orientação desse programa está claramente nas obras básicas, que esquecemos de consultar, de estudar, refletir e divulgar. E principalmente de fazê-la amplamente compreensível, em suas riquezas, para aqueles que se aproximam – sedentos por entender – e são bombardeados com condicionamentos que, ao invés de libertarem, aprisionam e repetem os mesmos equívocos da história bem conhecida, ao longo do tempo.

É nosso dever respeitar o Espiritismo! É nosso dever transmitir Espiritismo com fidelidade. Muitas pessoas que agora se aproximam do Espiritismo não trazem uma formação anterior que lhes facilite entender os fundamentos do Espiritismo e estes precisam ser explicados, comentados, exemplificados com clareza.

E, infelizmente, diante de tanta grandeza moral à disposição para cumprir sua justa finalidade, ficamos usando nosso tempo, recursos e inteligência para finalidades absolutamente distantes da genuína prática espírita que não é outra senão a caridade, em sua ampla abrangência, que não se restringe à doação de coisas, mas à doação de nós mesmos na gentileza, na sensibilidade, na atenção, no estender das mãos, no trabalho em favor do bem geral, etc., etc.

Abramos os olhos. Nossa responsabilidade é enorme. E nossa fragilidade também…

Orson Peter Carrara

Fonte: marcoaurelio5.blogspot.com

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Espiritismo e sentimento religioso: uma resposta de Léon Denis

Autor:

Jáder dos Reis Sampaio

Acabo de ler um artigo de Léon Denis, publicado na revista Le Spiritisme, de junho de 1889, no qual ele comenta a proposta do Sr. Marius George de criar em meio ao espiritismo um grupo positivista, que se apoiasse exclusivamente nos fatos e abandonasse tudo o que pudesse pertencer “ao domínio da hipótese”.

Denis estava participando da organização de um congresso organizado pela União Espírita Francesa, e confirma ao seu correspondente que “sua forma de ver será acolhida não só pelo congresso, mas de forma permanente por todos os seus irmãos, com o respeito que é devido às convicções sinceras e esclarecidas” (p. 81)

A seguir, Marius afirma que a obra de Allan Kardec “está manchada com dogmatismo e misticismo” e que por isso guardaria pouca relação com “os gostos e aspirações” da época em que eles viviam.

Denis argumenta que Kardec agrupou e coordenou o ensino dos espíritos, de forma a lhe dar um “corpo” de doutrina. Ele afirma que isso levou o espiritismo à “idade adulta”. Ele afirma que todos os que fugiram desse método, com teorias pessoais, edificaram obras efêmeras. Ele se refere a Roustaing, como exemplo, dizendo que ele merece o epíteto de místico com mais justiça.

Analisando Kardec ele cita o combate, com rigor, dos dogmas católicos em O evangelho segundo o espiritismo, O céu e o inferno e A gênese. Mostra a diferença do conceito de Deus entre os católicos, e penso que também entre os deístas como Voltaire, porque fala do Deus-relojoeiro, e faz uma imagem muito interessante, que já havia percebido na leitura de O céu e o inferno, a substituição de um Deus visto como imperador do universo (cercado por seus anjos-cavaleiros), por uma “imensa república de mundos governada por leis imutáveis, acima dos quais paira a Razão, Razão consciente, que conhece a si mesma e que é dona de si, que é Deus.” (p. 82)

Surpreendendo seu interlocutor, Denis afirma que a noção de Deus nos escapa (ele está discutindo com Marius George o misticismo da concepção de Deus) assim como as noções positivistas de infinito e eternidade. Em outras palavras, ele aponta uma contradição interna do positivismo: conceitos que não surgem da observação de fatos, mas da razão.

O autor espírita francês continua dizendo que Kardec entende “o sentimento religioso como uma força” que pode ser utilizada para o bem da humanidade. Ele afirma que a humanidade não tem menos necessidade do ideal que do real.

Para ele, “o ideal é essa intuição do melhor que nos eleva acima do visível, do conhecido, do realizado, em direção de concepções e de formas mais perfeitas.” (p. 82) Nessa frase, Denis mostra a seu interlocutor que uma visão exclusivamente positivista seria reducionista, defendendo certo idealismo (escola filosófica).

Outra colocação genial de Denis foi reconhecer que o sentimento religioso foi explorado por uma casta sacerdotal que produziu abusos em seu nome, mas que “fortificado pela ciência e pela Razão ele se tornará motivo de aperfeiçoamento individual e de transformação social”. (p. 82)

O espírita de Tours faz uma análise das religiões e mostra que sua parte exclusivamente humana e material é a “das definições, dos dogmas e de todo o aparato dos cultos e dos mistérios”, da mesma forma que Kardec havia discutido em seu artigo de 1868.

Ele afirma que as experiências espíritas dão uma base sólida à crença na vida futura, retirando-a do domínio das hipóteses e situando-a no domínio dos fatos (ele estaria se referindo a uma teoria baseada em evidências, como se diz hoje?). Também afirma que “seria uma grande falta, deixar às igrejas o monopólio da ideia de Deus”.

Com uma frase contundente, Denis reafirma a insuficiência do positivismo e o valor do sentimento religioso, quando escreve: “A missão do espiritismo não é excluir o sentimento religioso do coração humano e a noção de Deus, mas sim secularizá-los, para para purificar, para elevá-los, para apoiá-los na razão, a fim de torná-lo o motivo de melhoria.” (p. 83)

O mais interessante do artigo é ver que mesmo se opondo claramente à tese da redução do espiritismo aos limites traçados pelo positivismo, Denis respeita seu interlocutor. Ele conclui seu artigo dizendo:

“Mas qualquer que seja sua opinião sobre este assunto, creia, meu amigo e irmão, que estamos de acordo em pontos suficientes para que certas diferenças de opinião não nos possam separar e que você vai me encontrar sempre disposto a caminhar de mãos dadas na conquista de destinos melhores para nós e para a humanidade.” (p. 83)

Um texto muito importante para refletirmos no meio espírita, nos dias de hoje.

Jáder dos Reis Sampaio

Fonte: espiritismo.net

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A Enfermidade e a Cura

Nara de Campos Coelho

A ENFERMIDADE E A CURA

Nunca me esquecerei do dia em que vi o corpo de minha avó estendido no leito, minutos após o seu desencarne. Seus cabelos fartos e brancos pareciam vivos ao sabor da brisa que entrava pela janela do quarto. Mas eu, olhando demoradamente para aquele corpo, cujos olhos cerrados davam mostras de um sono tranquilo, senti que ele estava vazio. Os olhos se fecharam por não ter mais a alma para espelhar…

Essa foi a sensação mais forte daquele momento. Minha avó não estava ali. Saíra, deixando o corpo que lhe servira de instrumento de progresso durante 95 anos. Naquele dia, entendi como nunca porque o espiritismo usa o termo desencarne: o espírito continua vivo, mas despe-se da roupagem de carne dispensável no mundo espiritual para onde retorna. E o corpo sem espírito é apenas a veste adequada a nossa vida material. Tal qual um casaco útil para nos aquecer no inverno, inadequado, porém, ao verão.

Não somos as nossas vestimentas, por mais ricas, queridas e apropriadas que elas sejam. Por isso o apóstolo Paulo fez distinção entre o corpo da corrupção e o da ressurreição.

Quando a enfermidade bate à porta do nosso cotidiano, visitando-nos ou a entes queridos, sentimo-nos em meio a um terremoto interior. Ato contínuo, buscamos a cura, como famintos ao pão. Urge que a alcancemos, não nos importando de onde venha. Assim, é comum engrossarmos as fileiras dos mais inesperados e esdrúxulos processos terapêuticos, se ali identificarmos alguma expectativa de cura. Tal comportamento é tão antigo quanto o homem e a doença. Entretanto, raramente buscamos a cura real, pois basta sentirmos os primeiros efeitos positivos do tratamento para nos esquecermos de todos os medos e retomarmos a rotina anterior, muitas vezes a causa da doença.

O espiritismo nos dá informações muito úteis e práticas no trato com a doença, dizendo-nos que ela já traz em si um processo terapêutico o qual precisamos identificar para seu melhor aproveitamento. Eis que somos espíritos em evolução, com bagagem adquirida através das renovadas experiências no corpo físico a nos situar os vários matizes de necessidades. Dessa forma, não podemos viver como se fossemos corpo, pois apenas vestimos o corpo, verdadeira expressão do espírito.

E as doenças deste procedem, levando-nos a entender a fragilidade das profilaxias que nos reduzem a máquinas, desprezando-nos a essência. A Medicina oficial, embora já não considere a existência de doenças, mas de doentes, tem caminhado muito lentamente na adequação dos tratamentos a essa concepção.

Resultado: com todo seu inacreditável avanço, ainda luta com os remédios que, se fazem bem a um paciente, não surtem efeito em outro com o mesmo diagnóstico e, num terceiro, provocam efeitos colaterais, acabando por complicar o quadro. E permanecem inexplicáveis muitos acontecimentos como a reação de determinados pacientes que, ao contrário da maioria, vencem as doenças tidas como fatais ou irreversíveis. Bem como as epidemias, quando poupam muitos ao invés de exterminar todos, ocorrência certa se fossemos apenas corpos.

Por isso, a Homeopatia, a Antroposofia e outros caminhos da Medicina que vêem os pacientes também como espírito vão ocupando o espaço que de há muito lhes pertencia e, certamente, num futuro próximo, atuarão todas juntas, completando-se para beneficiar a humanidade inteira.

Com o espiritismo sabemos que as doenças estão na constituição íntima de cada um de nós e só se desenvolverão se lhe oferecermos ambiente propício. E mais uma vez percebemos que Jesus veio trazer-nos um código de vida, mas de vida em abundância, com muita saúde, paz e alegria.

Todos os seus ensinos revelam-nos formas de conduta capazes de sintonizar-nos a faixas superiores de vibração, pois tanto na saúde como na doença pesam a lei de causa e efeito. Assim, amando, perdoando, sendo fraternos, solidários, úteis e, enfim, combatendo nossas más tendências para viver segundo as leis de Deus, exemplificadas por Jesus, alcançaremos a terapêutica infalível da renovação, que nos libertará dos velhos hábitos que nos fizeram “abrir a porta” para a doença.

E então alcançaremos a cura, onde estivermos, pois teremos entendido a mensagem espiritual contida na enfermidade, e que Jesus revelou ao repetir: “Tua fé te curou. Vai e não tornes a errar para que não te suceda o pior!”

Nara de Campos Coelho

Fonte: kardecriopreto.com.br

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