Obras Básicas do Espiritismo

Cecília Alves

As Obras Básicas do Espiritismo constituem a base sobre a qual se constroem os alicerces da Doutrina Espírita.

O Evangelho Segundo o Espiritismo (KARDEC, 2019) nos recomenda, em seu Capítulo VI, item 5: “Espíritas!, amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo”.

Todo aquele que deseja se aprofundar nos conhecimentos do Espiritismo, ou até mesmo da Espiritualidade em geral, encontrará nas Obras Básicas Codificadas por Kardec um guia seguro, que o auxiliará a entender mais sobre a Doutrina Espírita, sobre as questões que envolvem o plano Espiritual e o plano físico, além de auxiliarem no autoconhecimento e melhora pessoal do indivíduo.

Como dito anteriormente, as Obras Básicas foram codificadas, ou seja, reunidas, compiladas por Allan Kardec, que não escreveu de próprio punho e imaginação os livros constantes da Codificação Espírita (outro nome para Obras Básicas), mas sim reuniu os ensinamentos trazidos pelos Espíritos a respeito da Espiritualidade e suas leis.

A Codificação é composta por 5 livros que também podem ser chamados de Pentateuco da Doutrina Espírita (OBRAS, 2021).

São eles:

O Livro dos Espíritos: teve sua primeira edição em 1857; é composto de perguntas e respostas feitas aos Espíritos elevados através de médiuns de diversos locais do mundo. O livro aborda temas como Deus, a imortalidade da alma, a necessidade da reencarnação, Leis Morais etc.

O Evangelho Segundo o Espiritismo: neste livro encontramos os ensinamentos da moral de Jesus Cristo sob a interpretação da Doutrina Espírita. Auxilia-nos a compreender diversas instruções do Mestre Jesus, não raras vezes contidas em parábolas que nem sempre são facilmente compreendidas por nós. Deste modo, o Evangelho vem aclarar as referidas parábolas e demais ensinamentos do Cristo.

A Gênese: aborda a Gênese do universo à luz da Doutrina Espírita, os milagres e as predições. É um livro bastante rico de ensinamentos.

O Céu e o Inferno: seu objetivo principal é demonstrar a imortalidade da alma, que ela sobrevive a morte do corpo físico. Nos mostra ainda que conceitos como Céu e Inferno são muito limitados, afinal, como nos ensinou o Cristo, há muitas moradas na casa do Pai, não sendo possível que existam apenas Céu e Inferno como destinação do homem após a morte física. Este livro é composto ainda de relatos de diversos Espíritos desencarnados, que nos esclarecem como ocorreu seu desencarne e qual a sua situação espiritual após o desenlace físico.

O Livro dos Médiuns: nos ensina como ocorre o intercâmbio entre o plano físico e o plano Espiritual, como ocorrem as manifestações Espíritas, discorre ainda sobre os tipos de mediunidade e em que constitui a sua prática. É um livro fundamental para quem deseja conhecer mais a respeito da mediunidade.

Além das Obras Básicas já citadas, são importantes leituras complementares ainda os seguintes livros publicados após o desencarne de Allan Kardec:

Obras Póstumas: contém informações a respeito de Allan Kardec, aponta questões fundamentais a respeito da Doutrina Espírita etc.

O Que é o Espiritismo: aborda os pontos fundamentais da Doutrina Espírita.

Em resumo, afirmamos que é fundamental conhecer as Obras Básicas bem como os livros complementares a elas já citados, visto que nos dão conhecimento do que é de fato o Espiritismo, e nos auxiliam na evolução Espiritual através dos seus ensinos morais. Além disto, acrescenta-se que é muito importante que conheçamos a Doutrina que desejamos abraçar ou ainda com a qual simpatizamos.

Cecília Alves

Fonte: Blog Letra Espírita

REFERÊNCIAS

OBRAS de Allan Kardec. Federação Espírita Brasileira, 2021. Disponível em: http://febnet.org.br. Acesso em: 30 de Julho de 2021.

KARDEC, Allan. A Gênese. 1º ed. Capivari: EME, 2020.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capivari: EME, 2019.

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O Legado de Jesus sob um Olhar Espírita

Marisa Fonte

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. “

“Não se perturbe nem se intimide vosso coração.”

(João, 14:27)

Os ensinamentos que Jesus nos deixou são atemporais e ainda hoje, pouco mais de 2000 anos da sua passagem pela Terra, tudo o que Ele ensinou ainda faz sentido para que a nossa vida possa fluir de maneira mais simples, sempre rumo à prática do bem. A fim de falar sobre o Mestre querido e o legado que Ele nos deixou, lembremo-nos das inúmeras lições do Evangelho Segundo o Espiritismo e pensemos em como alguns dos ensinamentos ali contidos podem ser aplicados continuamente às nossas vidas. Veremos que as lições continuam tão atuais como na época em que foram trazidas por Jesus.

Em um dos Seus muitos ensinamentos, Jesus nos chamou a atenção para o amor pelos nossos inimigos (Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 12). Amar aqueles que nos querem mal, naturalmente, não significa que tenhamos por eles o mesmo carinho que dispensamos àqueles que de fato amamos, pois isso seria falso quase que todo o tempo, uma vez que a maioria de nós não está ainda preparada para de fato amar aquele que nos prejudica. Aqui, pensemos que o amor é na verdade respeitar e desejar o bem, nunca o mal, e jamais ter desejos de vingança em relação a tais pessoas.

Pensemos na vida como uma grande escola, e em cada um de nós como um aluno que frequenta determinada série. É claro que aquele que tem mais conhecimento e o coloca em prática está mais apto a tomar certas atitudes do que outro que ainda está aprendendo as primeiras letras.

No capítulo 14, Jesus fala sobre honrar pai e mãe, o que também não significa que tenhamos que amar de fato os nossos pais, uma vez que as diversas encarnações nem sempre possibilitam que assim seja, pois pode ser que aqueles que nos deram a vida tenham sido nossos inimigos em outra encarnação, o que explica facilmente a aversão que muitas vezes filhos e pais sentem uns pelos outros. Porém, de uma coisa é necessário nos lembrarmos sempre: os pais possibilitaram que estivéssemos aqui vivendo a atual encarnação. Por isso, independentemente de afinidade ou de amor, o mais importante é que tenhamos respeito por eles e que sejamos gratos por haverem nos proporcionado essa oportunidade.

Sempre convido os filhos, mesmo adotivos, a serem gratos aos pais biológicos que lhes proporcionaram essa chance, uma vez que sem o veículo carnal não podemos viver aqui na Terra como encarnados. Por vezes, os pais biológicos são apenas instrumentos para que possamos nascer aqui, e sermos depois adotados ou cuidados por pessoas que estejam dispostas a fazê-lo.

Quando Jesus disse aos apóstolos que eles poderiam operar milagres, (capítulo 19), deixou o ensinamento de que a nossa fé pode transpor obstáculos que muitas vezes parecem intransponíveis. A fé nos sustenta nos momentos em que tudo parece perdido e a nossa esperança parece não fazer mais sentido. Naturalmente não poderemos ressuscitar os mortos, mas podemos encontrar na fé e na certeza da continuidade da vida as forças necessárias para superar esse momento de despedida momentânea. E assim ocorre em relação a todos os desafios que enfrentamos diariamente. A fé nos fortalece em dias de tristeza e em dias nos quais as nossas forças parecem nos deixar, pois ela sempre acena para nós com novas possibilidades.

O capítulo 11 fala sobre amar o próximo como a si mesmo. Isso é interessantíssimo, pois Jesus deixa claro aqui como é importante nós nos amarmos. E isso faz todo o sentido, uma vez que cada um só pode dar o que tem. Ora, se eu amo o próximo e não me amo, esse amor fica um pouco fora de contexto, pois eu quero oferecer ao outro algo que não possuo. Amar o próximo como a si mesmo: eu me amo, aprendo o que é o amor, e aí posso distribuir esse amor, pois a fonte de amor é inesgotável. Muitos dos nossos males, como a baixa autoestima e complexos dos mais variados tipos, residem na falta de autoamor.

Jesus na sua doçura nos ensinou que não é necessário nos preocuparmos em demasia. Nós achamos que preocupação é sinônimo de responsabilidade, mas não é. Precisamos sim nos ocupar das coisas a fim de obtermos resultados, mas sem preocupação, pois preocupar-nos causa ansiedade e faz com que fiquemos o tempo todo nos cobrando por tudo, exigindo de nós uma porção de coisas que acabam colocando sobre nós uma pressão desnecessária. Então, lembremo-nos das palavras de Jesus quando Ele diz, “Observai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham, nem fiam; e, entretanto, eu vos declaro que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, nunca se vestiu como um deles”. É claro que isso não é um convite à preguiça nem à acomodação, mas sim a certeza do amparo e do suporte que temos do invisível. Por certo precisamos fazer a nossa parte, pois sem o trabalho ficaríamos com o corpo e a mente atrofiados, e isso está embasado na Lei do Trabalho e na Lei do Progresso, e é deixado muito claro no capítulo 25, “Buscai e Achareis”, mais especificamente nas palavras, “Ajuda-te e o Céu te ajudará”.

Jesus nos convida à oração, quando diz “Pedi e Obtereis” (capítulo 27). Nós todos temos o direito de pedir, mas precisamos também nos lembrar de agradecer e de glorificar. Podemos – e devemos – vibrar pelo nosso planeta, pelos nossos semelhantes, e por todos os seres que habitam a Terra e o Universo, uma vez que de um modo ou de outro estamos todos interligados, sendo filhos do mesmo Pai. Muitos pedem e se revoltam ou se decepcionam ao não conseguirem o que pediram, mas muitas vezes, lá adiante, entendem que foi melhor não terem conseguido aquilo que pediram.

Resumindo, temos o nosso livre arbítrio e recebemos a oportunidade de uma nova encarnação para exercitá-lo. É preciso que tenhamos humildade de reconhecer os nossos limites e de termos boa vontade para viver uma vida que valha a pena, e, uma vez que a fila dos que desejam reencarnar é bem grande, façamos dessa vida algo que justifique termos tido a vez de estarmos aqui neste momento.

e o maravilhoso legado que o Mestre nos deixou seja a bússola a nos guiar nos tempos de grandes desafios e também de grandes alegrias. Que aprendamos a amar, a compartilhar e a espalharmos o que tivermos de melhor, pois embora não possamos consertar o mundo, podemos fazer a diferença no mundo através dos nossos pensamentos, palavras e atos. Que esses venham sempre carregados de amor e com uma pequena faísca da luz de Jesus, e já estaremos contribuindo para que a Terra alcance mais rapidamente a sua nova condição de planeta mais feliz e de regeneração.

Marisa Fonte

Fonte: Blog Letra Espírita

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Maria de Nazaré Sob a Luz da Doutrina Espírita

Carla Silvério Barbosa e Rafaela Paes de Campos

Quem foi Maria de Nazaré e qual o seu significado para a Doutrina Espírita?

O nome Maria tem origem no aramaico “Maryām” – senhora soberana, a pura (SIGNIFICADO DOS NOMES, 2021).

Segundo os relatos bíblicos, Maria foi a mãe de Jesus, esposa de José e grande divulgadora das mensagens do grande Mestre após o seu retorno ao plano espiritual.

[…] O anjo Gabriel saúda Maria dizendo:

– Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!

[…] Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás no teu seio e dará à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim. (BÍBLIA SAGRADA, 2006, 1:28-33).

Maria, enquanto mãe de Jesus, cuidou de sua criação e da formação de sua personalidade no caminho do bem até que chegasse o momento de caminhar por si rumo à sua valorosa missão de redenção da humanidade.

Foi mulher israelita, originária da cidade de Nazaré (hoje capital do distrito Norte de Israel), daí o seu nome ter sido registrado historicamente como “Maria de Nazaré”, haja vista que, em seu tempo, as pessoas não tinham sobrenome e comumente eram conhecidas por suas cidades natais ou por suas famílias – “filha de”, “irmã de”, e teria vivido entre o final do Século I a.c. e início do Século II a.c. (BROWN; FITZMYER; DONFRIED, 1978, p. 140).

Na cultura popular judaico-cristã, Maria é entendida como sendo a mulher que concebeu Jesus por meio de um milagre (anunciação do anjo Gabriel e unção do Espírito Santo), jamais tendo conhecido ou praticado qualquer ato sexual com seu marido José, seja antes ou após o nascimento de Jesus.

Segundo a cultura judaica, Maria teria dado à luz a Jesus com cerca de 13 anos de idade. Naquela época essa era a faixa etária para as mulheres se casarem e constituírem suas famílias (DAVES; ALLISON, 2004, p. 12).

Maria de Nazaré é citada nos evangelhos canônicos e nos apócrifos, bem como no Alcorão (livro sagrado dos mulçumanos) sempre como a mãe de Jesus, o salvador (para os cristãos) ou grande profeta (para os mulçumanos), com profundo respeito à sua figura e tudo que representa, como sendo a mulher mais pura que já esteve encarnada no planeta Terra.

Para os cristãos da Igreja Católica Romana, Ortodoxa, Ortodoxa Oriental, Anglicana e Luterana, sendo a mãe de Jesus, Maria é a mãe de Deus e a Teótoco (a portadora de Deus), uma vez que Jesus Cristo é o próprio Deus.

A figura de Maria é venerada desde os primórdios do Cristianismo.

Segundo o Espiritismo

Maria é um Espírito puro de mais alta evolução, sendo exemplo de amor, abnegação e sacrifício, trabalhando ao lado de Jesus em prol da humanidade.

Somente um Espírito da hierarquia evolutiva de Maria poderia desempenhar com absoluto sucesso a valiosa missão de ser a mãe do grande Governador de nosso orbe, o emissário de Deus para os homens, que se fez menino para se transformar “no modelo da perfeição moral que a Humanidade pode pretender sobre a Terra” e suportar com fé no Criador todas as mazelas e dores ao ver seu filho atravessar o suplício do calvário, sem vacilar, tendo em vista suas elevadas virtudes já conquistadas ao tempo da vinda de Jesus ao plano material onde nos encontramos:

[…] As figuras de Simeão, Ana, Isabel, João Batista, José, bem como a personalidade sublimada de Maria, têm sido muitas vezes objeto de observações injustas e maliciosas; mas a realidade é que somente com o concurso daqueles mensageiros da Boa Nova, portadores da contribuição de fervor, crença e vida, poderia Jesus lançar na Terra os fundamentos da verdade inabalável. (XAVIER, 1996, p. 106, grifo nosso).

A figura de Maria de Nazaré como Espírito de mais alto grau evolutivo é relatada pela vasta literatura espírita como exemplo de abnegação e dedicação ao auxílio dos Espíritos atormentados e sofredores, sejam desencarnados ou ainda encarnados, zelando com grande amor por toda a humanidade (ANUÁRIO ESPÍRITA, 1986, p. 13).

Para a Doutrina Espírita, Maria é Espírito imaculado não no sentido virginal, bio-fisiológico do termo, mas sim um ser evoluído ao grau de Espírito puro, sem máculas a serem sanadas por meio da marcha evolutiva a que todos nós estamos sujeitos. Até mesmo porque, para o Espiritismo, Jesus teria sido concebido e nascido pelas vias naturais de reprodução humana (sexuada), conforme dita a Lei de Reprodução.

Nesse sentido, sendo a Lei de Reprodução uma Lei Natural (Questões 614 e 686, de O Livro dos Espíritos) e portanto, Lei de Deus, é um grande contrassenso se imaginar que Maria de Nazaré, Jesus e José se sujeitariam a pactuar com uma afronta à Lei de Deus agindo por “milagres” e não respeitarem a Lei de Reprodução (KARDEC, 2007, p 399 e 433).

Assim, a virgindade imaculada de Maria, para o Espiritismo é uma alegoria da cultura de “pecado” estabelecida pelo cristianismo ao longo dos séculos.

Para a Doutrina Espírita, os eventos tidos como “milagres” são explicados pela razão, conforme nos ensina Kardec, na obra A Gênese – 2ª parte, cap. XIII – Deus faz milagres?”:

[…] o poder de Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente pelo grandioso conjunto das obras da criação, pela sábia providência que essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como nas mais mínimas, e pela harmonia das leis que regem o mecanismo de Universo, do que por algumas pequeninas e pueris derrogações que todos os prestímanos sabem imitar?  Que se diria de um sábio mecânico que, para provar a sua habilidade, desmantelasse um relógio construído pelas suas mãos, obra-prima de ciência, a fim de mostrar que pode desmanchar o que fizera?

[…] mas, ponderando que Deus não faz coisas inúteis, ele emite a seguinte opinião: Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no Universo se produz fora do âmbito das leis gerais. Deus não faz milagres, porque, sendo, como são perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se ainda há fatos que não conhecemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos necessários. (KARDEC, 2006, p. 289-290).

Assim, o Espiritismo tem profundo respeito por Maria de Nazaré.

Imaginemos, em nossa restrita compreensão que nós, meros seres imperfeitos, assumimos grande responsabilidade ao recebermos no seio de nossos lares uma criança, um ser em formação, e que deverá ser educado e orientado por seus responsáveis. Eleve-se isso a uma potência incompreensível para o nosso estágio evolutivo, ao racionalizar a responsabilidade assumida pelos pais de Jesus, “em especial por Maria de Nazaré, que se dedicou com amor, carinho, compreensão e renúncia àquele filho que lhe vinha dos mais altos planos da vida, e que desempenharia espinhosa e árdua missão entre os homens” (FEESP, 2021, s.p.).

Segundo o registo de Yvone Pereira, na obra Memórias de um Suicida, Maria de Nazaré tem fundamental papel no resgate e cuidado com os Espíritos sofredores que sucumbem em suas dores e ceifam as próprias vidas. É ela a amorosa assistente a esses irmãos sofredores, atuando por meio da Legião dos Servos de Maria, abnegados trabalhadores do Hospital Maria de Nazaré, cujo comando e direção geral são por ela desenvolvidos (PEREIRA, 2006, s.p.).

Muito mais importante que a discussão a respeito de uma virgindade que não altera em nada os importantes fatos históricos que são oriundos da concepção de Jesus por Maria, é a compreensão do amor infinito percebido por este Espírito ao assumir posição tão marcante de responsabilidade imensurável diante das profundas modificações que a vinda de Jesus trouxe para a humanidade.

Ainda nos dias de hoje, segue no exercício de sua missão de amor incondicional, acolhendo os Espíritos que mergulham nas trevas das dores e inconsequência, oferecendo braços amorosos em prol da compreensão e evolução de todos os Espíritos criados e amados por Deus.

Carla Silvério Barbosa e Rafaela Paes de Campos

Fonte: Blog Letra Espírita

REFERÊNCIAS

ANUÁRIO ESPÍRITA. Diversos autores. Ano XXIII, nº 23. Item: Fatos mediúnicos (Notícias de Maria, mãe de Jesus). Araras: IDE, 1986.

BÍBLIA SAGRADA, edição luxo – tradução da Vulgata Latina por Pe. Antônio Pereira de Figueiredo. São Paulo: Ed. DCL, 2006.

BROWN, Edward Raymond; FITZMYER, Joseph A.; DONFRIED, Karl Paul.  Mary in the New Testament – A Collaborative statement by Protestant, Anglican and Roman Catholic scholars. Filadélfia: Fortress Press, 1978.

DAVES, W. D.; ALLISON, Dale C. Matthew: A Shorter Commentary. 1ª edição. Nova York: Ed. Continnuun-3PL. 2005.

FEESP. A difícil missão da mãe de Jesus. 2016. Disponível em: https://www.feesp.com.br/2016/12/23/a-dificil-missao-da-mae-de-jesus-paulo-oliveira/. Acesso em: 29 set. 2021.

KARDEC, Allan.  A Gênese.  1ª edição de bolso. Rio de Janeiro: Ed, FEB. 2006.

KARDEC, Allan.  O livro dos Espíritos – tradução de Evandro Noleto Bezerra.  1ª edição comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2007.

PEREIRA. Yvonne A.  Memórias de um Suicida. Pelo Espírito Camilo Candido Botelho. 5. ed. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2006.

SIGNIFICADO DOS NOMES. Significado do Nome Miriam. 2021. Disponível em: https://www.significadodosnomes.com.br/miriam. Acesso em: 29 set. 2021.

XAVIER. Francisco Cândido. A Caminho da Luz.  Pelo Espírito Emmanuel. 22ª edição. Rio de Janeiro: Ed. FEB. 1996.

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QUAL O SIGNIFICADO DOS SONHOS?

Fernando Rossit

O sonho é a realidade das atividades da alma, ou seja, uma lembrança do que a alma viveu durante o sono. Seja uma recordação da infância ou vidas passadas, muitas vezes associada à vida presente, com uma projeção do futuro, fruto de preocupações e desejos presentes ou passados, vivências espirituais de qualquer natureza etc.

É então que ela (a alma) tira de tudo o que vê, de tudo o que percebe, e dos conselhos que lhe são dados, as ideias que lhe ocorrem depois, em forma de intuições.

Complicado, né? Sim, por isso é muito difícil dar um significado preciso para os sonhos.

Quando estamos fora do corpo, por desdobramento, ficamos, via de regra, semi-conscientes, sem noção exata do que ocorre ao nosso redor. Isso se dá por conta da falta de preparo ou nosso baixo desenvolvimento espiritual.

Existem profissionais que fazem análises dos sonhos, porém é de suma importância que se faça com seriedade e responsabilidade. Muitas vezes estas análises trazem importantes informações que auxiliam no aprimoramento e autoconhecimento da pessoa.

Envolvidos aos sentimentos e emoções, nos sugestionamos às interpretações que julgamos serem as verdadeiras.

Mas é muito difícil a interpretação dos Sonhos porque, em desdobramento, não é nosso cérebro físico que registra as experiências fora do corpo. Como ele é constituído de matéria muito grosseira, no retorno da alma ao corpo, raramente o cérebro vai guardar as recordações da alma (vivências fora do corpo) – e se isso acontecer, poderá ser por associação fragmentária.

Por exemplo, se você tiver medo de cobra no estado de vigília (normalmente acordado), numa experiência extra-corporal que você passa medo (um pesadelo por conta de um filme que assistiu etc.) e retorna ao corpo com aquele sentimento (medo), o cérebro físico poderá associá-lo à cobra. Depois de despertar, você poderá se “lembrar” que sonhou com cobras e outras situações assustadoras.

Temos um caso semelhante desse relatado no Livro “Os Mensageiros”, de André Luiz, Capítulo 38.

“O sonho é a realização do desejo” – dizia Freud.

Freud acreditava que era preciso decodificar os sonhos, que ele considerava como espécie de picos visíveis do inconsciente. A psicanálise seria a sonda capaz de desenterrar esses símbolos e decifrar as metáforas que eles escondem.

Freud estava certo quando falava de metáfora. Os Sonhos constroem a mesma linguagem metafórica da poesia, só que com imagens.

Podemos considerar 3 tipos de sonhos:

1-Sonhos comuns: repercussão de nossas disposições físicas (circulatórias, digestivas…) ou psicológicas (sentimentais: medo, preocupações, anseios, desejos….).

2-Sonhos reflexivos: exteriorização de impressões e imagens arquivadas na memória.

3-Sonhos espirituais: atividade real e efetiva do espírito durante o desdobramento propiciado pelo sono.

Exemplo de Sonhos Comuns (são os mais frequentes):

Quase sempre desencadeados por preocupações e desejos intensos. Se você vai ter uma entrevista de emprego ou uma prova na faculdade, em razão de sua preocupação, poderá sonhar boa parte da noite com isso que, no fundo, do ponto de vista psicológico, estará demonstrando sua insegurança.

Nesses casos, é pequeno o afastamento da sua alma do seu corpo, e envolto por aquelas cenas fluídicas criadas pela sua própria mente, julga estar vivendo algo real (indo mal na prova ou se complicando na entrevista).

Encontros com encarnados e desencarnados nos sonhos:

Durante o sono o espírito se distancia do corpo físico, mas não fica inativo. Neste momento o encontro com entes queridos é possível da mesma forma com desafetos, de acordo com o pensamento que nos liga uns aos outros por vários motivos.

Nos sonhos espirituais a alma, despreendida do corpo, exerce atividade real e efetiva no plano espiritual, facultando meios de nos encontrar com parentes, amigos, instrutores espirituais, inimigos ou desafetos, desta e de outras vidas.

Quando dormimos, o nosso espírito parte em disparada, por atração automática, para os locais de nossa predileção.

  • o viciado procurará os outros viciados;
  • o religioso procurará um templo;
  • a alma caridosa irá ao encontro do sofrimento para assistir os necessitados;
  • o interessado em aprender e estudar procurará os cursos na espiritualidade.

É muito importante nosso preparo antes de dormir, evitando programas de TV ou filmes de conteúdo negativo, por exemplo. A prece antes de dormir é um excelente recurso para que possamos ter bons sonhos porque nos liga aos bons espíritos, garantindo-nos boas companhias espiritais.

Fernando Rossit

Fonte:  Kardec Rio Preto

 Fontes:

  • Estudando a Mediunidade – Martins Peralva
  • O Livro dos Espíritos – Emancipação da Alma
  • Os Mensageiros – André Luiz/Chico Xavier
  • O Livro dos Médiuns – Allan Kardec
  • Blog Espírita Chico Xavier
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DIFERENTES FORMAS DE APRESENTAÇÃO DA MEDIUNIDADE

Andresa Küster e Rodrigo Oliveira

As diferentes formas pelas quais se apresenta a mediunidade são objeto de detalhamento no capítulo 14, da segunda parte do “O Livro dos Médiuns”. A referida obra informa que todas as pessoas estão sujeitas a receber algum grau de influência dos espíritos, ainda que seja comum denominar como médium as pessoas que possuem a faculdade mediúnica nitidamente caracterizada (KARDEC, 2018, p. 134). Tais caracterizações levam em conta as diferentes manifestações observadas, dentre as quais destacam-se as ocorrências relacionadas aos médiuns das seguintes categorias: médiuns videntes, médiuns auditivos, médiuns intuitivos, médiuns de efeitos físicos e médiuns escreventes ou psicógrafos.

Na categoria de médiuns videntes estão aqueles que são capazes de enxergar os espíritos. A obra explica que essa capacidade não é algo permanente e que está relacionada com a possibilidade de que determinados espíritos sejam visualizados ao se aproximarem do médium em situações específicas. Logo, uma pessoa que seja considerada médium vidente não irá necessariamente visualizar espíritos frequentemente, mas terá essa possibilidade de modo permanente, diferente de outras pessoas que podem, em momentos momentâneos e passageiros, ver aparições de pessoas amadas ou conhecidas que tenham recém desencarnado. Na obra “A Gênese”, Kardec apresenta explicação sobre como ocorrem as aparições:

“No seu estado normal, o perispírito é invisível para nós; como, porém, é formado de matéria etérea, o Espírito pode, em certos casos, por ato da sua vontade, fazê-lo passar por uma modificação molecular que o torna momentaneamente visível. É assim que se produzem as aparições, que não se dão do mesmo modo que os outros fenômenos, fora das leis da natureza. Nada tem esse de mais extraordinário do que o do vapor que, invisível quando muito rarefeito, se torna visível quando condensado” (Kardec, 2013, p. 252).

Na obra “Desafios da Mediunidade”, psicografada por Raul Teixeira a partir de comunicações do Espírito Camilo, os autores esclarecem que a faculdade mediúnica se apoia tanto nos recursos da mente quanto nos do corpo do médium encarnado. No caso da vidência, audiência e inspiração mediúnica, não há exteriorização do fenômeno através do corpo do médium, situação que dificulta a verificação de autenticidade:

“…o exame terá que ser mais exigente, haja vista que os fenômenos são subjetivos, “impalpáveis” detendo grandes possibilidades de ser confundidos com produtos da mera imaginação, tipicamente anímicos, decorrentes de muitas mentes excitadas e ansiosas, que julgam estar “vendo”, “ouvindo” ou “sentindo” coisas elaboradas por elas mesmas. Não é à toa que Allan Kardec propõe que “há muito que desconfiar dos que se inculcam possuidores dessa faculdade” ao se referir à vidência (Teixeira, 2012, p. 22).

Os médiuns auditivos possuem a capacidade de ouvir a voz dos espíritos, assim como sons vocais imitando a voz humana ou gritos produzidos em fenômeno denominado pneumatofonia. No “Livro dos Médiuns”, ao tratar de pneumatofonia e de audiência, Kardec alerta para a necessidade de que se busque ter certeza de que se trata de uma comunicação externa, que possui sentido, e não de algum ruído provocado por motivos fisiológicos, como zumbidos no ouvido ou frases ouvidas no momento em que se está próximo do adormecimento:

“Ocorre com bastante frequência ouvirmos, quando meio adormecidos, pronunciarem distintamente palavras nomes e algumas vezes até frases inteiras, alto o suficiente para nos acordar, sobressaltados. Embora possa acontecer em certos casos que isso seja realmente uma manifestação, esse fenômeno nada tem de suficientemente positivo para não ser atribuído a uma causa análoga à que desenvolvemos na teoria da alucinação. O que se ouve dessa maneira não tem, de resto, nenhuma consequência; não ocorre o mesmo quando estamos completamente acordados, porque, se é um espírito que se faz ouvir, poderemos trocar ideias com ele e manter uma conversa regular” (Kardec, 2018, p. 130).

As características da mediunidade de efeitos físicos também são tratadas no capítulo 14, da segunda parte do “O Livro dos Médiuns”. A obra explica que os médiuns de efeitos físicos são particularmente aptos a produzir fenômenos materiais, como os movimentos de corpos inertes e os ruídos. (KARDEC, 2018, p. 134). A popularização de tais ocorrências nos salões de Paris chamou a atenção de Allan Kardec e o motivou a estudar as suas causas, iniciativa que deu origem às pesquisas que originaram as obras básicas da Doutrina Espírita. As observações de Kardec na condição de estudioso, tinham inicialmente o intuito de verificar a natureza das ocorrências, em busca de evidências de possíveis fraudes. Todavia, além de perceber que os ruídos e as movimentações de objetos eram intermediados pela atuação de médiuns presentes às sessões, percebeu-se que em determinados casos eram seguidas instruções quanto ao número de batidas ou à posição dos objetos o que levou à conclusão de que se tratavam de manifestações inteligentes nas quais havia comunicação entre os envolvidos. Kardec destaca que a faculdade de produzir efeitos materiais é considerada rudimentar, na comparação com meios mais aperfeiçoados de comunicação, como a escrita e a fala. Assim, pode-se concluir que os efeitos físicos atestam a continuidade da existência após a morte do corpo físico, ao chamar a atenção para a possibilidade de que os desencarnados exerçam influência sobre objetos manuseados pelos encarnados. Já as comunicações através da escrita e da fala permitem o intercâmbio de ideias mais elaboradas entre os dois planos em situações nas quais atuam os médiuns dotados das faculdades da intuição e da psicografia.

A forma como ocorre a psicografia é explicada no capítulo 15, da segunda parte do “O Livro dos Médiuns”. Por considerar a escrita manual como a forma mais simples, cômoda e completa de comunicação, a obra recomenda que seja desenvolvida com exercícios pelos médiuns. No caso dos médiuns mecânicos, o espírito utiliza a escrita do medium para colocar no papel suas ideias:

“O espírito pode, pois, exprimir diretamente o seu pensamento, seja pelo movimento de um objeto para o qual a mão do médium serve apenas de apoio, seja pela ação sobre a própria mão do médium. Quando o espírito age diretamente sobre a mão, dá-lhe um impulso completamente independente da vontade do médium; ela avança sem interrupção e à revelia deste, enquanto o espírito tiver alguma coisa a dizer, e para quando ele termina. O que caracteriza o fenômeno, nessa circunstância, é que o médium não tem a menor consciência do que escreve. A inconsciência absoluta, nesse caso, caracteriza o que chamamos de médiuns passivos ou mecânicos. Essa faculdade é preciosa pelo fato de não deixar a menor dúvida sobre a independência do pensamento daquele que escreve” (Kardec, 2018, p. 146).

Por fim, no caso dos médiuns intuitivos, diferente da psicografia, o médium tem consciência do que escreve, embora reconheça não se tratar de ideias originalmente formuladas pelo encarnado. Dentre os médiuns intuitivos, encontram-se os médiuns inspirados, que recebem, pelo pensamento, comunicações estranhas às suas ideias previas. Kardec considera que há maior dificuldade para atestar as ocorrências de mediunidade por intuição. (Kardec, 2018, p. 146-147).

Além de apresentar as situações que definem as diferentes formas de apresentação da mediunidade, das mais rudimentares, como os efeitos físicos, às mais sutis, como mediunidade por intuição, as obras da Doutrina Espírita instruem as pessoas estudarem os fenômenos e a buscar compreender as motivações que levam os espíritos a se comunicarem através dos médiuns. Dessa forma, tendo conhecimento ampliado a respeito do assunto, a mediunidade pode ser vista com maior naturalidade e compreendida por um número maior de pessoas.

Andresa Küster e Rodrigo Oliveira

Fonte: Blog Letra Espírita

Referências:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Matheus Rodrigues de Camargo, (com base na 11ª edição francesa, de 1869) 1ª ed. 1ª reimpressão. Capivari-SP: Editora EME, 2018.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Evandro Noleto Bezerra, da 5ª edição francesa, de 1869) 2ª ed. 1ª impressão. Brasília: FEB, 2013.

CAMILO (Espírito). Desafios da Mediunidade. [Psicografado por] J. Raul Teixeira, 3ª ed. Niterói: Fráter Livros Espíritas, 2012.

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AUTODESCOBRIMENTO

Uma viagem dentro de mim mesmo

Geraldo Campetti Sobrinho

Ao reflexionar sobre esse tema, alinhavei alhures, pelos idos de 2011, o texto Em Busca de Identidade, a seguir transcrito, com o intuito de contribuir para o entendimento de mim mesmo e, quiçá, auxiliar no autoencontro do leitor:

O que me faz ser quem eu sou? Essa é uma dúvida que entrementes me surge…

A questão é curiosa e me faz perceber que ainda não me conheço integralmente.

Bem provável é que me conheça, ainda, muito pouco, apenas de relance.

Quem sou eu, de onde vim, o que estou fazendo aqui, para onde vou, o que será de mim? São perguntas que não costumamos fazer a nós mesmos. E quando as fazemos, as respostas não são encontradas dentro de uma gaveta ou num arquivo de computador.

Imagino que as explicações estejam nos escaninhos da mente ou nos refolhos do coração, onde também são guardadas as emoções e os sentimentos.

As respostas estão dentro de nós mesmos…

Assim, há necessidade da busca interior, para o autodescobrimento e o despertar de potencialidades latentes em nossa intimidade, boa parte delas ignorada pelos seus hospedeiros.

Quando estendo o olhar ao cosmos infinito à procura de conexão extrassensorial, percebo que o macrocosmo mantém relação causal com o microcosmo, tornando impossível conhecer o todo sem que se estabeleça intrínseca relação com a parte.

A necessidade de integração demandada por minha alma resta insolúvel quando não consigo compartilhar com o todo do qual faço parte a parte que sou, para que o todo seja integral.

É uma incompletude que me faz indagar: o que me faz ser quem eu sou?

* * *

A temática do autodescobrimento é estudada por Joanna de Ângelis (FRANCO, 2000) ao nos estimular à descoberta de recursos interiores não explorados, insertos em estado latente no âmago do ser, aguardando desenvolvimento.

Necessário recorrer a alguns valores ético-morais: a coragem para decifrar-se, a confiança no êxito, o amor como manifestação elevada, a verdade que está acima dos caprichos seitistas e grupais, que o pode [o ser] acalmar sem o acomodar, tranquiliza-lo sem o desmotivar para a continuação das buscas.

Nessa abordagem psicológica, depreendemos virtudes identificadoras dos Espíritos batalhantes em constante labor de autossuperação e descobrimento de si mesmos, de retirada de véus que os cobrem ou os escondem em escaninhos de labirintos subjetivos, quais sejam: coragem, confiança, amor e verdade.

A coragem para decifrar-se é disposição que nem todos estão determinados a assumir. O autoenfrentamento exige força de vontade incongruente com a tibieza, fragilidade ainda manifesta na insegurança e indecisão dos errantes, ilusoriamente estagnados na ociosidade comportamental e acomodados a vícios da inferioridade. Empreender uma viagem para dentro de si, desvendar se, perscrutar-se atravessando camadas e atingindo a essência, penetrando a intimidade do ser, desnudando personalidades, para culminar no autoencontro da identidade real, do Espírito Imortal, exige coragem, hombridade e intrepidez.

Muitos – presumimos até a maior parcela da Humanidade -, estagiam nos estados letárgicos do sono e da inconsciência, decorrentes da ignorância ou da deliberação. Não se encontram despertos para as realidades maiores da Vida, estão adormecidos e apenas sencientes às exterioridades fugazes do hedonismo. Não conseguem aprofundar-se na sensibilização de estados superiores da magnificência divina estampada na Natureza exuberante, contudo imperceptível a seus olhos empanados.

O autoconhecimento constitui se no maior desafio do ser humano que principia a jornada luminosa rumo à perfeição relativa à qual está destinado pelos desígnios superiores. Será testado nas anfractuosidades íntimas, auscultado nos refolhos da alma, incitado ao autoexame, revolvido na estagnação, para liberar-se do efêmero, volátil e trépido, e vislumbrar o permanente, eterno e seguro, em conexão intrínseca com a essência divina de que se constitui, posto que filho e obra do Pai e Criador.

A confiança no êxito denota convicção do caminhante na conquista do anelo, por transparecer a serenidade consciente de quem laborou arduamente e acredita que, após a consecução dos empreendimentos próprios, independentemente de se ter logrado êxito ou não, tudo o mais será resultado da Bondade Divina a se revelar em sua vida. Diligenciada a sua quota, Deus misericordiosamente incumbe se do restante. É a paz de consciência, fruto do dever bem cumprido, alinhado às grandiosas potências da Natureza, consubstanciadas em perfeito misto de firmeza e serenidade, a demonstrar a onipresença de Deus.

A confiança traduz-se no somatório de credibilidade e afinidade, dividida pelos riscos possíveis, quando associada a relações interpessoais e vinculada à intracomunicação, no quesito da autoconfiança. Reflete estado íntimo nem sempre fácil de ser conquistado, pois, comumente, surgem sentimentos antagônicos, pensamentos obnubilados e fé vacilante. Não acreditamos em nós e, além disso, carecemos de afinidade conosco mesmos, expondo fragilidades do autoamor. A confiança é uma conquista que se dá no decorrer do tempo, após exercícios contínuos de autossuperação e perseverança na aquisição de hábitos saudáveis ao corpo e ao Espírito. O amor como manifestação elevada é base do autodescobrimento, fonte de vida e lei determinante no micro e macrocosmo dos multiversos, desde as primevas manifestações da evolução anímica até os níveis da angelitude, rumo à Causalidade Primária, de onde tudo se originou e para onde tudo converge. O amor reflete o sublime conúbio entre a criatura e o Criador, repercutindo as imarcescíveis leis que regem o Universo e o inefável sentido da Vida, dinâmico em beleza e harmonia.

Autodescobrir é reconhecer Deus dentro de si, é corroborar as sentenças evangélicas: sois deuses (João, 10:34); vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo.

(Mateus, 5:13 e 14). É descobrir o deus interno que habita em cada um de nós, a apontar a origem divina do ser humano e o destino que lhe está reservado no porvir.

E o amor é esse mecanismo imponderável a conduzir as criaturas na trajetória ascensional, resoluta e inexorável.

A verdade é a grande desafiadora do ser humano que vive fugas inócuas, no intento de se esconder, olvidando que, à semelhança dos passos na neve, os registros fazem-se marcantes, enquanto alguma tempestade não os oculte. Não é possível nos escondermos por muito tempo. Cedo ou tarde, a revelação demonstrará a veracidade dos fatos, pensamentos, sentimentos e palavras; mesmo que sob ignorância popular, a intimidade reservará as dimensões exatas das ocorrências ou construções psíquicas, alimentadas pela mente humana no decurso de suas existências. Os atenuantes e agravantes correrão pela Contabilidade Divina, que jamais se equivoca nos cálculos.

Joanna de Ângelis (FRANCO, 2000) leciona:

Erra-se tanto por ignorância como pela rebeldia. Na ignorância, mesmo assim, há sempre uma intuição do que é verdadeiro, face à presença íntima de Deus no homem. […] Tamanha a obviedade do ensino que nos passa despercebido.

Mesmo na condição de ignorantes, não poderemos alegar justificativas para o erro, pois a Lei de Deus está escrita em nossa consciência (KARDEC, 2017), e ali podemos encontrar as respostas a quaisquer dúvidas. O autodescobrimento consiste nessa busca incansável de conhecer a verdade, propiciadora da libertação, coadunando-se com o registro do discípulo amado no Evangelho de Jesus: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João, 8:32).

Essa jornada a ser empreendida pelo incipiente, condição inerente aos Espíritos em estágio evolutivo no qual por ora nos localizamos, pode levar o indivíduo a duas situações extremas e acentuadamente prejudiciais: a consciência de culpa e o sentimento de autopiedade.

A culpa pode se transformar em azorrague lancinante a minar as mais íntimas reservas de integridade, quando vergastam o ser à permanência nos grilhões do remorso devastador.

Recrudescem os acusadores, arvorados em juízes inclementes, a impingir árduas penalidades ao indivíduo que se permite auto-obsidiar ou vitimar-se pela obsessão decorrente de nefastas influências dos filhos de Deus, ainda baldos de luminescência, por insistirem deliberadamente em ínvios trajetos de aflição e incompreensões ante a Lei Maior da Vida. Eis os rebeldes, que insistem em erro por teimosia.

A autopiedade é um sentimento prejudicial ao ser humano por torná-lo incapaz de reagir, fazê-lo sentir-se impotente para apreender a realidade em sua dimensão desafiadora, levando-o à postura lamentável da comiseração por si próprio, como se abandonado pelas forças divinas e por todos os entes queridos. Sente-se relegado, esquecido e culmina por recolher-se à declarada insignificância, tombando nos estados enfermiços da falta de vontade e do desânimo, propiciadores de acentuadas patologias de natureza psicológica, afetiva e espiritual.

Nessa situação, o indivíduo não se vê como filho ou pai, irmão ou primo, sobrinho ou tio, não se enxerga como ser humano, abandonando-se a si mesmo a lamentáveis despautérios.

Num caso como noutro, imprescindível buscar ajuda médica, terapêutica, espiritual.

Medicamentos adequadamente preceituados, a depender de cada caso, podem ajudar. O atendimento fraterno na Casa Espírita, seguido de tratamento por meio da fluidoterapia, será oportuno se a situação assim demandar. Tudo, sempre com bom senso, discernimento.

A orientação da mentora de Divaldo Franco é no sentido de que nos liberemos da consciência de culpa e dos sentimentos de autopiedade pela assunção da responsabilidade.

Eis o melhor caminho. Somos responsáveis pelos nossos atos e escolhas, e inelutavelmente, estaremos sujeitos às suas consequências, pois assim é da Lei de Causa e Efeito – regente de nossos destinos -, que cada um responda segundo as suas obras. O sofrimento é decorrente da imperfeição, como exara o codificador no Código penal da vida futura (KARDEC, 2016).

Porém, a capacidade de vencer esse estado temporário está no próprio homem que pode usar de sua vontade para realizar grandes coisas, como Jesus nos estimulou: “Sois deuses”; “podeis fazer o que eu faço e muito mais” (João, 10:34; 14:12).

 * * *

Breve colóquio com um amigo de lides doutrinárias, no intercurso de uma live do programa Entre dois mundos: uma visão espírita da realidade, exibido pela FEBtv, possibilitou-nos conferir inusitada lição.

Compartilhou o irmão espiritista, em salutares reminiscências da convivência paternal, que o seu estimado genitor exortava-o a realizar indagação tríplice sempre ao ocaso de cada dia, antecedendo o sono físico:

1º) O que eu fiz de útil ou de bom hoje?

2º) O que eu aprendi de novo neste dia?

3º) Vivi com alegria?

Prescindível registrar que se as três respostas forem afirmativas, estaremos seguindo bom caminho, coadunados com as forças supremas. Se alguma for negativa, significa que precisaremos reavaliar nossa postura no decorrer de cada dia, sempre em busca da reforma íntima indispensável à ascensão ao Reino de Deus.

Essa jubilosa experiência evocou-nos a inolvidável recomendação de Santo Agostinho (KARDEC, 2017), quando nos convida a passar em revista o que fizemos ao longo do dia e buscar, no dia seguinte, reforçar o que é bom, corrigindo o que fizemos em dissonância com a Vontade Divina. Ali, nas assertivas agostinianas, encontramos uma exposição humanista de como nos devemos relacionar com Deus, com o próximo e conosco mesmos, agindo em harmonia com os preceitos da solidariedade, do respeito e do equilíbrio, assentados no Evangelho de Jesus e revivificados pelo Espírito Consolador do Espiritismo.

O amor a Deus, ao próximo e a nós mesmos, na observância do roteiro definido pelo Meigo Nazareno, é a estratégia mais efetiva para o autodescobrimento e a percepção profunda do verdadeiro sentido da Vida Imortal, concessão sublime que se esparge para toda a Criação, como assinatura de Deus na existência de cada um de nós.

* * *

Geraldo Campetti Sobrinhogeraldocampetti@gmail.com

Revista Reformador – Novembro de 2017

Referências:

FRANCO, Divaldo P. O Homem Integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 11. ed. Salvador: LEAL, 2000. Pt. 3 – A busca da realidade, cap. 11 – Autodescobrimento.

KARDEC, Allan. O céu e o Inferno. Trad. Manuel Quintão. 61. ed. 4. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2016. Pt.1, cap. 7.

O Livro dos Espíritos. Trad.. Guillon Ribeiro. 93. ed. 4. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2017. q. 919a e 621.

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